Enchentes no Nepal e no Tibete: o que se sabe sobre a tragédia que deixou centenas de mortos e desaparecidos

Policiais carregam um sobrevivente para um local mais seguro após uma enxurrada repentina em Trishuli, no Nepal

Crédito, Navesh Chitrakar/Reuters

Legenda da foto, Policiais carregam um sobrevivente para um local mais seguro após uma enxurrada repentina em Trishuli, no Nepal
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Cerca de 24 horas após uma grande enxurrada repentina e um deslizamento de terra atingirem o Nepal e o Tibete, equipes de resgate correm contra o tempo para buscar sobreviventes, recuperar corpos e fornecer assistência a comunidades afetadas pelo desastre.

No Nepal, pelo menos 162 pessoas morreram e centenas de turistas estão desaparecidos após a tragédia, ocorrida na quarta-feira (26/8).

No Tibete, a mídia estatal chinesa relata três mortos e 558 desaparecidos.

A tragédia ocorreu na fronteira entre o Nepal e o Tibete, controlado pela China.

Estima-se que pelo menos 403 pessoas estejam desaparecidas, incluindo 341 cidadãos estrangeiros. Entre os desaparecidos, há pessoas de 28 nacionalidades diferentes — incluindo mais de 100 da Índia, 54 dos Estados Unidos, 33 do Reino Unido e 53 da Ucrânia.

A área é bastante procurada por peregrinos e turistas que fazem trilhas.

O Itamaraty publicou uma nota nesta quarta-feira reafirmando que não há, até o momento, registro de brasileiros entre as vítimas.

"O governo brasileiro expressa profundo pesar e solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo do Nepal e da China", diz a nota.

"A Embaixada do Brasil em Katmandu e a Embaixada do Brasil em Pequim acompanham com atenção os desdobramentos da calamidade no país."

O desastre é considerado o mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.

Legenda do vídeo, O momento em que avalanche atinge fronteira Nepal-Tibete

Segundo o órgão de turismo do Nepal, o NTB, uma parte significativa dos visitantes afetados pelo desastre seguia rumo ao Kailash Mansarovar, no Tibete, um local de peregrinação.

A rota afetada também dá acesso ao Parque Nacional de Langtang e ao lago sagrado de Gosainkunda.

O número de mortos e desaparecidos pode aumentar nos próximos dias, à medida que as equipes de resgate consigam avaliar a dimensão da tragédia.

País 'em choque'

Gráfico mostra a localização do Nepal

Um porta-voz do governo nepalês disse à BBC que a dimensão da destruição está "além da imaginação".

O distrito de Chitwan registrou o maior número de mortes. Rasuwa e Nuwakot, às margens do rio Bhotekoshi, também foram atingidos.

Houve destruição de estradas, pontes, redes de comunicação e infraestrutura hidrelétrica, incluindo danos ao projeto hidrelétrico de Trishuli.

A polícia diz que está trabalhando para levar moradores de áreas de risco para locais seguros e realizar operações de busca e resgate.

Militares, policiais, trabalhadores do setor de energia e funcionários de alfândega e imigração estão entre as centenas de desaparecidos.

O primeiro-ministro, Balendra Shah, afirmou que o país está "em choque e profundamente abalado" pela perda de vidas e pelos danos causados pelas enxurradas.

Em uma publicação nas redes sociais, ele classificou o desastre como "repentino" e "de grandes proporções" e prestou condolências às vítimas e suas famílias.

Shah também afirmou que o governo mobilizou imediatamente todos os recursos disponíveis para as operações de resgate.

Ao lado da China e da Índia, o Nepal abriga oito das montanhas mais altas do mundo, incluindo o Monte Everest, conhecido localmente como Sagarmatha.

Como um dos países mais pobres do mundo, a economia do Nepal depende fortemente de ajuda externa e do turismo.

'Grandes perdas de vida' no lado tibetano

A mídia estatal chinesa CCTV também relatou "grandes perdas de vidas" no lado tibetano da fronteira.

Até o momento, a CCTV relatou três mortos e 265 desaparecidos no Tibete, considerado como uma região autônoma da China.

O presidente chinês Xi Jinping ordenou um esforço de resgate "total" para localizar os desaparecidos, além de pedir reforço no monitoramento e nos sistemas de alerta antecipado para evitar novos desastres.

O governo chinês também determinou o envio de equipes à região para operações de busca e resgate.

Yee Liang, empresário chinês baseado em Katmandu, disse à BBC que sua empresa de logística tem sete caminhões na área atingida, todos com motoristas nepaleses, e que perdeu contato com todos eles por falta de sinal.

Segundo ele, não houve alerta prévio, embora deslizamentos ocasionais fossem comuns na estação chuvosa.

Desta vez, disse, a situação "parece muito mais grave".

Já Guan Daoxuan, da província chinesa de Sichuan, relatou à BBC ter perdido contato com a esposa, que trabalha para uma construtora estatal envolvida em obras de estradas e pontes no Tibete.

Segundo ele, autoridades nepalesas tentaram enviar um helicóptero para inspecionar a área, mas ventos fortes dificultaram o acesso.

O que causou a enchente

Casas encontram-se parcialmente submersas em águas barrentas à beira de um rio após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal

Crédito, Prabin RANABHAT / AFP via Getty Images

Legenda da foto, Casas encontram-se parcialmente submersas em águas barrentas à beira de um rio após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal

Até o momento, a principal hipótese é que uma avalanche de gelo tenha dado início a uma sequência de eventos.

Liz Stephens, professora de Risco Climático e Resiliência na Universidade de Reading, explica que grandes volumes de gelo e rocha podem ter aumentado o nível do rio e provocado uma forte elevação repentina da água.

A avalanche também pode ter bloqueado temporariamente o rio, formando uma espécie de barragem. Quando esta se rompeu, uma grande quantidade de água e sedimentos pode ter avançado rio abaixo.

O terreno difícil do Himalaia, inclusive no Tibete, seria o principal motivo para a ocorrência da avalanche.

Por isso, especialistas tentam analisar imagens de satélite, mas as nuvens de monções não têm ajudado muito desta vez, segundo eles.

Alguns acadêmicos nepaleses na China dizem ter recebido relatos semelhantes de alguns especialistas chineses. Mas a agência de notícias chinesa Xinhua, em uma publicação na rede social X, chamou o fenômeno de deslizamento de lama no Nepal.

Embora se saiba que as mudanças climáticas contribuem para o derretimento de geleiras na região, cientistas afirmam que ainda é muito cedo para determinar se elas desempenharam algum papel neste evento específico.

A verdadeira causa será conhecida quando imagens de satélite mais nítidas forem obtidas e verificadas por múltiplas fontes.

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shishir Khanal, afirmou que um terremoto havia sido registrado na região por volta das 8h37 (horário local), o que poderia ter provocado um deslizamento de terra que resultou em uma inundação repentina.

Mas uma análise do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indica que um deslizamento de terra precedeu a inundação repentina no Nepal e que não houve um terremoto.

"Esse evento foi inicialmente registrado como um terremoto de magnitude 4,4", afirma o órgão.

"Análises adicionais de ondas sísmicas de longo período indicam que a energia sísmica foi, na verdade, gerada por um deslizamento de terra."

Um homem ferido em um hospital para tratamento após uma enxurrada repentina em Trishuli, no Nepal.

Crédito, Navesh Chitrakar/ Reuters

Legenda da foto, Um homem ferido chega a hospital em Trishuli, no Nepal

Resgates em andamento

As equipes de resgate correm contra o tempo para encontrar sobreviventes.

O gabinete do primeiro-ministro do Nepal informou que os esforços de busca e resgate realizados pelo Exército do país continuarão durante a madrugada de quinta-feira (27/08).

A operação envolve 1.697 militares, enquanto outros 656 foram mantidos de prontidão para operações adicionais.

Um grande número de pessoas isoladas acima da cidade de Timure, em Rasuwa, será evacuado por via aérea na manhã de quinta-feira, acrescentou o gabinete.

EUA, China, União Europeia e Índia, entre outros, prometeram assistência ou já enviaram suprimentos.

Washington prometeu US$ 500.000 (cerca de R$ 2,5 milhões) em ajuda, valor que será usado em abrigos emergenciais, saneamento e outros itens de assistência para as comunidades afetadas.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, afirmou que seu país está "preparado para fornecer ao Nepal todo tipo possível de assistência humanitária".

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que o bloco está pronto para mobilizar assistência.

Já o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, disse estar "entristecido pelas graves inundações" que "tiraram muitas vidas, deixaram pessoas desaparecidas e causaram destruição generalizada".

"Minha solidariedade está com todos os afetados", afirmou, acrescentando que equipes da ONU e parceiros estão mobilizando suprimentos e funcionários no Nepal para apoiar o governo local.

'Meus familiares foram arrastados diante dos meus olhos'

A BBC tem ouvido relatos de sobreviventes da enchente repentina.

Sonam Dorjee, um guia de trekking para turistas estrangeiros, está com uma irmã desaparecida. Eles são da aldeia de Syafru Besi, em Rasuwa, no Nepal, que foi atingida pela inundação às 9h de quarta-feira em horário local (0h em Brasília).

Sonam tinha saído uma hora antes para ir de carro a Katmandu, capital do país. Ele diz que ouviu o som das cheias enquanto se afastava da aldeia de carro.

"Parece um terremoto", diz. "A minha casa desabou... Vi uma fotografia."

Sonam Dorjee

Crédito, Sonam Dorjee

Legenda da foto, Sonam Dorjee reza para que a irmã possa ser encontrada com vida

Ele descreve a inundação como "repentina e devastadora".

"Muitos sobreviventes ficaram agora sem casa e precisam de resgate e evacuação de emergência, bem como de alimentos, alojamento temporário e apoio médico."

Ele reza para que a irmã, Dechen Tamang, possa ser encontrada com vida. Além de Dechen, o marido dela e vários outros familiares também estão desaparecidos.

"Há uma hipótese de 10% que nos dá esperança", afirma.

Kalpana Malla, no distrito nepalês de Nuwakot, diz que a enchente "levou tudo" dela.

"Meus familiares foram arrastados pela enchente diante dos meus olhos", diz.

Kalpana Malla
Legenda da foto, Os familiares de Kalpana Malla foram arrastados pela enxurrada

Ela afirma que seu pai, sua mãe, sua irmã e os filhos de sua irmã foram todos arrastados pela correnteza.

"Eles não conseguiram escapar da enchente; não havia qualquer possibilidade", diz ela. "Essa enchente levou tudo, mas meu filho e eu subimos no telhado de uma casa e sobrevivemos, embora eu não consiga explicar como."

Seu filho, Sugam Malla, diz que salvou a mãe puxando-a pela mão.

"Antes disso, eu tinha dado meu telefone à minha irmã para que ela ficasse em segurança e pudesse pedir ajuda, mas agora não consigo entrar em contato com ela; o celular está desligado. Estou preocupado que ela tenha sido arrastada pela enchente."

A jornalista Shreejana Shrestha, da BBC Nepali, visitou um hospital em Katmandu, para onde alguns sobreviventes estavam sendo levados de helicóptero para receber tratamento.

Familiares estavam reunidos do lado de fora do hospital, na esperança de encontrar seus entes queridos.

Ram Kumari Shrestha disse que procura pelo marido, que havia ido para Rasuwa a trabalho, como motorista. Segundo ela, não tem notícias dele desde a noite anterior.

O que mostram as imagens verificadas

A equipe de verificação da BBC (BBC Verify) confirmou a veracidade de vídeos que mostram uma ponte sendo arrastada pela correnteza e prédios de vários andares desabando com a força da água, na região de Trishuli Bazaar, distrito de Nuwakot, cerca de 25 km a noroeste de Katmandu.

As imagens mostram o rio Trishuli aumentando rapidamente de volume e velocidade, carregado de sedimentos, até que a ponte se solta de suas bases e é levada pela correnteza — segundos depois, vários prédios desabam.

Um outro vídeo, filmado no mesmo local, mostra o cenário após a enchente: o nível do rio consideravelmente mais alto, árvores e construções anteriormente visíveis já desaparecidas, e diversos imóveis próximos à margem destruídos, parcialmente desmoronados ou cobertos de lama.

Imagens de satélite comparando a região antes e depois da enchente também mostram o rio Trishuli visivelmente mais volumoso e água espalhada pelas áreas ao redor.

Esta reportagem será atualizada com as informações mais recentes.