Os vídeos feitos com IA que erotizam a escravidão no Brasil para lucrar com anúncios

Imagem gerada por IA de um homem negro e uma mulher branca

Crédito, Reprodução/YouTube

Legenda da foto, Imagem de IA gerada por canal para narrar 'romances' fictícios sobre escravidão
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Atenção: esta reportagem aborda vídeos que sexualizam e romantizam a escravidão, com descrições de violência sexual e física contra pessoas escravizadas. O conteúdo pode ser considerado perturbador.

"O escravo gigante de olhos azuis que fez a sinhá enlouquecer", "A escrava que engravidou do coronel e virou sinhá" e "A sinhá viúva que não resistiu ao escravo de olhos verdes".

Esses são alguns dos títulos de vídeos de histórias fictícias de romance, desejo e violência sexual passados no período da escravidão no Brasil publicados no YouTube, a maior plataforma de streaming do mundo.

Com capas ultrarrealistas geradas por inteligência artificial (IA), que frequentemente mostram homens negros musculosos ao lado de mulheres brancas, esses vídeos acumulam milhões de visualizações em português, inglês, espanhol, francês e outros idiomas.

Uma pesquisa feita pela BBC News Brasil identificou ao menos 150 canais que publicam esse tipo de conteúdo na plataforma, por meio de buscas por palavras-chave, transcrições e títulos. Juntos, somam cerca de 80 milhões de visualizações e mais de 1 milhão de inscritos.

A produção ocorre em escala global, com conteúdos publicados no Brasil (inclusive por brasileiros), nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá, na Espanha, na França e em outros países, segundo as descrições destes canais, que aparecem publicamente no YouTube.

Os títulos prometem revelar episódios chocantes ou desconhecidos do período escravista. Um vídeo que atrai espectadores frequentemente leva a dezenas de outros semelhantes, que repetem personagens, palavras-chave, imagens e estruturas de roteiro.

Especialistas que analisaram parte do material a pedido da BBC News Brasil afirmam que os vídeos romantizam a violência da escravidão, reforçam estereótipos racistas e apresentam histórias inventadas como se fossem fatos documentados.

Sua produção está ligada a um mercado de canais que usam inteligência artificial para criar conteúdo de forma rápida e barata, em busca de audiência e, potencialmente, a tão almejada monetização, ou seja, ganhar dinheiro com publicidade.

Um administrador de um dos canais analisados pela reportagem resumiu sua estratégia de forma direta: "O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho".

O YouTube disse à BBC News Brasil que, após análise, tomou medidas contra canais e vídeos por violarem suas diretrizes, mas não especificou quais conteúdos foram removidos.

A reportagem refez a análise após o posicionamento da empresa e constatou que cerca de 10% dos canais identificados saíram do ar.

A plataforma afirmou que qualquer material que viole suas diretrizes e políticas é removido assim que é identificado.

"Além disso, tomamos medidas contra canais que desrespeitam nossos termos de forma recorrente ou grave, o que inclui a desmonetização ou o encerramento da conta", disse o YouTube.

O site esclareceu ainda que exige que seus criadores informem quando usam mídia alterada ou sintética, incluindo IA, para criar conteúdo realista.

"Estamos em constante evolução dos nossos sistemas de análise humana e automatizada para identificar e remover conteúdos que tentem explorar nossa plataforma para obter lucro por meio da promoção de violência ou da sexualização de grupos protegidos."

Produção em larga escala em busca de dinheiro

Os vídeos que erotizam a escravidão no Brasil fazem parte de um mercado dedicado à produção de conteúdo em larga escala com uso de inteligência artificial, chamado, por alguns especialistas, de AI Slop, termo usado para descrever material barato, repetitivo e produzido em série.

Este tipo de vídeo é publicado, em sua maioria, em páginas conhecidas como canais darkou sem rosto (faceless), modelo de produção de conteúdo para redes sociais em que seus criadores não aparecem nas produções. O YouTube não informa publicamente quem administra cada canal.

A BBC News Brasil tem documentado os impactos desse fenômeno em diferentes áreas, como nos vídeos de IA hipnotizantes e de baixa qualidade voltados para crianças e falsos médicos de IA, que usam avatares hiperrealistas para assustar idosos e vender suplementos milagrosos.

Também mostrou quem são as pessoas por trás de canais deste tipo, que muitas vezes acreditam que poderão faturar alto com vídeos feitos com IA, como anunciam os gurus deste mercado. Mas poucos lucram, de fato, segundo especialistas.

Em geral, os vídeos de IA sobre a escravidão trazem histórias longas, de quase uma hora cada, acompanhadas de imagens que simulam fotografias ou cenas históricas, com títulos construídos para despertar curiosidade e choque.

Os canais não serão identificados nesta reportagem para não contribuir para a popularização de conteúdos que podem ser considerados ofensivos, racistas, enganosos, segundo especialistas que assistiram ao conteúdo coletado.

Formato importado dos EUA tem terreno fértil no Brasil

Montagem mostra vídeos do YouTube sobre escravidão com teor sexual
Legenda da foto, Vídeos feitos por IA abordam tema da escravidão com histórias de romance entre escravos e mulheres brancas

A BBC News Brasil apurou que esse tipo de conteúdo começou a surgir com mais frequência há cerca de dois anos em canais do YouTube criados nos EUA.

Os produtores perceberam que vídeos de inteligência artificial com títulos extremos conseguem atrair audiência e começaram a explorar narrativas de violência sexual, submissão e supostos romances entre pessoas escravizadas e seus senhores.

O sucesso das páginas em inglês chamou a atenção de administradores de canais brasileiros, que passaram a produzir, a partir de 2025, vídeos semelhantes, ambientados no Brasil.

O país oferece um terreno fértil para esse tipo de narrativa — foi o que mais recebeu africanos escravizados nas Américas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças foram trazidos da África entre o século 16 e meados do século 19, mais de um terço de todo o comércio negreiro nas Américas.

Nos vídeos analisados pela BBC News Brasil, a escravidão aparece menos como um sistema de exploração e mais como cenário para histórias de desejo, traição, vingança e violência.

Gustavo Souza, pesquisador da organização Desvelar, em palestra, usando camiseta e calça jeans

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, O pesquisador Gustavo Souza avalia que os vídeos de IA sobre escravidão resgatam representações de pessoas negras que perderam espaço na TV aberta: 'Me ofende'

Gustavo Souza, organizador do livro Enfrentando Deepfakes e pesquisador da organização Desvelar — organização de mobilização e pesquisa sobre tecnologia e políticas públicas —, assistiu a parte do material identificado pela BBC News Brasil.

Ele avalia que esses vídeos retomam formas de representação de pessoas negras que perderam espaço na mídia, com a redução na TV aberta de produções que colocam pessoas negras na posição da escravidão, mas que continuam presentes no imaginário do público.

Para Souza, os vídeos podem encontrar audiência justamente por recuperar esse repertório conhecido. "Essas histórias repercutem com o que já existe de crença. É meio que eu querer escutar a mesma música novamente", diz o pesquisador.

"Então, para mim, tem um lugar de racismo aqui de reforçar essa imagem de qual é o lugar eternamente de pessoas negras no Brasil, o lugar do escravo, do escravizado. Esse tipo de conteúdo me ofende em uma dimensão coletiva."

'Uso para monetizar. Depois, troco de nicho'

Canal mistura vídeos sobre notícias e publicações sobre escravidão com IA; imagem mostra thumbs do Youtube do canal e rosto do criador de conteúdo

Crédito, Reprodução/YouTube

Legenda da foto, Canal mistura vídeos sobre notícias e publicações sobre escravidão com IA

A maior parte dos canais analisados não informa publicamente quem está por trás das páginas. Em um deles, porém, a BBC News Brasil conseguiu identificar o responsável e falar com ele.

A BBC News Brasil localizou o responsável a partir de uma busca online pela imagem usada no perfil do canal.

O retrato levou às redes sociais de Diego Souza, criador de conteúdo que reúne quase 1 milhão de seguidores no Instagram e vende cursos sobre como ganhar dinheiro com vídeos de fofocas e notícias nas redes sociais.

Os vídeos mais populares de seu canal tentam atrair os espectadores com imagens de capa que mostram homens negros sem camisa ao lado de mulheres brancas e frases sugestivas.

A descrição da página afirmava que o canal apresenta "documentários narrativos e histórias históricas que vão além dos livros", além de "histórias criadas por IA, baseadas e inspiradas em fatos históricos reais".

Segundo o texto, o conteúdo é voltado ao público adulto e tem como objetivo promover a "preservação da memória histórica com respeito, responsabilidade e verdade".

Diego confirmou à reportagem ser o responsável pelo canal, mas disse que essa não é sua atividade principal. Segundo ele, os vídeos sobre escravidão foram publicados para que a página alcançasse os requisitos necessários à monetização no YouTube, ou seja, para que pudesse receber dinheiro com anúncios.

A plataforma exige, para isso, ao menos 1 mil inscritos e 4 mil horas de exibição pública nos últimos 12 meses.

"O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho", disse Diego.

Nicho é como os criadores de conteúdo no YouTube se referem aos temas de um canal desse tipo. No seu caso, publicações mais recentes do canal passaram a tratar de artistas e casos policiais.

Questionado sobre o risco do material ser considerado ofensivo ou preconceituoso e as implicações éticas da estratégia, Diego afirmou que não conseguiria formular uma opinião, pois esse não era o conteúdo principal de seu trabalho.

"O YouTube permite, então está dentro das regras", disse.

Diego afirmou, após ser perguntado sobre o potencial ofensivo deste tipo de conteúdo, que não "daria permissão" para mostrar esse conteúdo como sendo de sua autoria e avisou que tornaria os vídeos privados.

No dia seguinte à primeira conversa, Diego voltou a falar com a BBC News Brasil. Afirmou que o material não era de sua autoria, que não refletia o conteúdo que produz e que se tratava de "material de terceiros, de caráter público", utilizado "de forma pontual" e fora de sua linha de trabalho. Depois, os vídeos foram removidos de seu canal.

Imagem de um criador de conteúdo divulgando um curso em um site

Crédito, Reprodução

Legenda da foto, Perfil no Instagram com quase 1 milhão de seguidores administra canal com vídeos sobre escravidão e também vende cursos sobre como ganhar dinheiro com vídeos sobre fofocas e notícias

R$ 25 mil em seis meses com vídeos de escravidão

Não há dados públicos sobre quanto canais no YouTube ganham com seus vídeos. Mas a BBC News Brasil encontrou um exemplo que pode ajudar a ilustrar por que esses vídeos se tornaram um nicho consolidado na plataforma.

Uma captura de tela exibida por um desses canais, que já não está mais no ar, indicava ganhos de cerca de R$ 24,6 mil em seis meses, com aproximadamente 200 vídeos publicados e mais de 2 milhões de visualizações.

A reportagem não conseguiu confirmar esses ganhos de forma independente.

Para verificar que tipo de publicidade era exibida junto aos conteúdos, a reportagem criou uma nova conta no YouTube e acessou os maiores canais analisados.

Durante o teste, identificou anúncios em inglês de ao menos quatro empresas, em vídeos que estavam no ar há dois anos.

Uma delas, de Vancouver, no Canadá, afirmou à BBC News Brasil que não tinha conhecimento de que sua publicidade estava sendo exibida junto a esse tipo de conteúdo e que não havia selecionado especificamente aquele canal ou vídeo.

Segundo a companhia, após ser informada pela reportagem, tomou medidas imediatas para revisar e ajustar as configurações de suas campanhas publicitárias.

Outra empresa, uma multinacional da área da saúde, disse que não tinha conhecimento da exibição dos anúncios.

Afirmou que direciona suas campanhas para públicos "com interesse em temas de saúde, bem-estar e qualidade de vida", que o canal citado foi bloqueado e que exigiu esclarecimentos da plataforma.

Canal no YouTube mostra dashboard com supostos ganhos em página sobre escravidão no Brasil

Crédito, Reprodução/YouTube

Legenda da foto, Canal no YouTube mostra dashboard com supostos ganhos em página sobre escravidão no Brasil. A página agora está fora do ar.

'Vídeos recriam mitos sexistas e racistas sobre a escravidão'

Uma das características em comum é que esses canais apresentam histórias fictícias como se fossem narrativas históricas ou "baseadas em fatos históricos".

Um dos canais em português identificados pela BBC News Brasil tem 23,4 mil inscritos e quase 1 milhão de visualizações. O vídeo mais popular ultrapassa 100 mil visualizações e está no ar há pelo menos oito meses.

Embora o YouTube informe que o conteúdo foi gerado por IA, a narração, igualmente artificial, afirma tratar-se de uma "história que precisa ser contada exatamente como aconteceu, sem filtros, sem amenizações".

A trama acompanha Eulália Mendes de Albuquerque, que seria casada com um rico proprietário de escravos e passaria a se relacionar sexualmente com um deles, Tomé. O vídeo chega a afirmar que "arqueólogos da USP" teriam descoberto a ossada desses personagens.

Uma busca pelo nome da personagem mostra que o mesmo enredo é reproduzido em textos e vídeos de páginas semelhantes, sem qualquer fonte histórica, inclusive em inglês.

A reportagem não encontrou registro documental que comprove a existência dos personagens ou do episódio descrito. Procurada, a Universidade de São Paulo (USP) também não encontrou tal informação.

Nenhum dos quase 300 comentários publicados sobre o vídeo questiona a veracidade da história ou dos personagens.

"Bom trabalho e obrigado pelo belo vídeo", diz um espectador.

"Sinto muito por Tomé e Eulália", afirma outro.

A historiadora Keila Grinberg, com blusa azul e camisa estampada, sorrindo em retrato

Crédito, Marina Juppa/Arquivo pessoal

Legenda da foto, Para a historiadora Keila Grinberg, vídeos recriam mitos antigos sobre a escravidão

A BBC News Brasil pediu a historiadores que comentassem, de forma geral, o teor desses vídeos.

Para Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh, nos EUA, esses conteúdos recriam mitos antigos sobre a escravidão. "São mitos profundamente racistas e sexistas", afirma.

Segundo Grinberg, as histórias misturam a ideia da suposta potência sexual dos homens negros com a imagem de mulheres brancas dominadas pelo desejo.

A escolha de casais formados por mulheres brancas e homens negros também não seria casual. "Isso é o suprassumo da proibição da sociedade escravista nos olhos dessas pessoas. É aquilo que não poderia acontecer de jeito nenhum", diz.

Ao mesmo tempo, relações entre homens brancos e mulheres negras escravizadas são frequentemente naturalizadas. "Como se fosse uma coisa correta, como se não fosse violento, como se não fosse escravidão."

Para Grinberg, a mistura de invenção e aparência documental é um dos principais problemas. "O que o vídeo cita também pode ser inventado."

Ela afirma que o público precisa aprender a perguntar como uma informação histórica foi produzida: se os personagens existiram, que documentos registram o episódio e quais outras fontes podem confirmar a narrativa.

"Ele [o aluno] aprende história quando vê uma novela, com o pai e a mãe. Aprende história de várias maneiras. Isso é bom. O complicado é conseguir distinguir uma mentira repetida mil vezes", afirma.

'É um apelo à sexualização e à erotização nas relações escravistas e nas relações interraciais'

As imagens e os títulos de alguns desses vídeos constroem uma representação específica das pessoas escravizadas.

Homens negros aparecem frequentemente sem camisa, musculosos, acorrentados ou em posições de submissão. Mulheres brancas são apresentadas como sedutoras, perversas ou dominadas pelo desejo.

Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Afro-Cebrap, assistiu a alguns dos vídeos coletados pela BBC News Brasil.

Ela afirma que o material transforma um passado de exploração e violência em histórias de romance e desejo.

"É um apelo à sexualização e à erotização nas relações escravistas e nas relações interraciais", afirma.

Nos vídeos, reforça Telles, os homens negros aparecem frequentemente musculosos, com o corpo exposto e associados a uma suposta potência sexual.

Para ela, essa representação retoma estereótipos racistas que apresentam homens negros como reprodutores e "máquinas sexuais" e, em algumas narrativas, como estupradores.

"O homem branco aparece como todo-poderoso e a mulher branca como completamente anulada, submissa ou diabólica", diz.

Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Afro-Cebrap

Crédito, Daniel Antônio/Arquivo pessoal

Legenda da foto, Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Afro-Cebrap

Telles pesquisa a história de mulheres negras, africanas e descendentes, relações de gênero, maternidade e escravidão no século 19, além do trabalho doméstico no pós-abolição.

Para ela, alguns desses vídeos, ambientados em fazendas de café no século 19, transformam relações marcadas por exploração do trabalho, torturas físicas, estupros, separação de famílias, lutas pela liberdade e muita opressão em "historietas" sobre paixões entre senhores, mulheres brancas escravistas e pessoas negras escravizadas.

"Multiplicam-se nos enredos narrativas de estupros de meninas e mulheres negras, mulheres brancas escravistas sendo oferecidas pelo marido para serem sexualmente violentadas por homens cativos", afirma.

"O que é mais chocante é que essas imagens de romantização do estupro têm público. Apelam e criam uma narrativa de prazer sexual masculino ligada à violência e ao sofrimento das mulheres."

Canais copiam histórias em busca de visualizações

Thumb de vídeo no YouTube

Crédito, Reprodução/YouTube

Legenda da foto, Vídeo teve mais de 1,5 milhão de visualizações

A reportagem identificou que parte desses canais recicla as mesmas histórias.

Algumas versões mantêm personagens, datas, locais e situações de violência. Outras transferem a narrativa para diferentes países e alteram nomes e detalhes, preservando a mesma premissa.

Um dos exemplos mais difundidos conta a história de um coronel que teria permitido que sete homens escravizados mantivessem relações sexuais com sua esposa.

A versão mais popular, publicada com o título "O coronel que dividia a esposa com 7 escravos", teve mais de 1,5 milhão de visualizações e recebeu mais de 1,5 mil comentários. O YouTube sinaliza o uso de IA no material.

Segundo o vídeo, o episódio teria ocorrido em Minas Gerais, em 1864. A narração apresenta nomes de personagens, propriedades e acontecimentos específicos, mas não indica fontes sobre o caso.

Variações do enredo foram publicadas por mais de 30 outros canais, segundo pesquisa da BBC News Brasil.

Em alguns casos, o título é repetido quase palavra por palavra. Em outros, a história é transportada para outros países, com mudanças nos personagens e na data, mantendo a promessa de revelar um episódio desconhecido da escravidão.

Os comentários mostram que o público recebe o material de maneiras diferentes. Alguns espectadores consideram a narrativa plausível. "Acredito sim. Toda vida existiram belos canalhas", escreveu um usuário.

Outros questionam a origem das informações. "Quem registrou esses detalhes?", perguntou uma pessoa, referindo-se às datas, aos personagens e às circunstâncias descritas na narração.

Há também espectadores que identificam o conteúdo como ficção ou produto de inteligência artificial. "Agora histórias fictícias estão bombando", escreveu um usuário. Outro resumiu: "ChatGPT tá criativo mesmo."

'Plataformas não deveriam monetizar ou recomendar esse conteúdo'

A pesquisadora Fernanda Rodrigues em retrato, usando um colar dourado e camisa branca com botões

Crédito, Marco Marinho/Arquivo pessoal

Legenda da foto, Fernanda Rodrigues é coordenadora de pesquisa do Instituto de Referência Internet e Sociedade (Iris) e doutoranda em direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

A pesquisadora Fernanda Rodrigues, que estuda a regulação de inteligência artificial, defende que vídeos que configurem discriminação, discurso de ódio ou violência contra a mulher deveriam ser removidos.

Na sua visão, os canais identificados pela reportagem se apresentam como produtores de conteúdo educativo ou histórico para usar o sofrimento de pessoas negras para atrair audiência.

Rodrigues afirma ainda que a circulação desses vídeos pode influenciar a forma como crianças e adolescentes compreendem a escravidão.

"A gente perde a noção se aquele conteúdo é problemático", diz Rodrigues, que é coordenadora de pesquisa do Instituto de Referência Internet e Sociedade (Iris).

"No final das contas, há um mercado que ensina a criar esse tipo de conteúdo, sabendo que plataformas monetizam e você consegue lucrar de forma muito fácil sobre algo que viraliza muito."

Na avaliação da pesquisadora, "quando se trata de um conteúdo que brinca na linha tênue sobre o que é discriminação, seria relevante que as plataformas, ao menos, não monetizassem esse tipo de conteúdo ou sequer o recomendassem".

O YouTube afirmou à BBC News Brasil que reconhece que alguns temas podem ser profundamente sensíveis ou controversos e que seu objetivo é "equilibrar a manutenção de uma comunidade segura com a defesa da liberdade de expressão dentro dos limites das nossas políticas".

A empresa disse que mídias sintéticas que violam as diretrizes da comunidade existentes, como assédio, discurso de ódio ou desinformação, que possam causar danos no mundo real, estão sujeitas à remoção, "independentemente de estarem rotuladas ou não" (como IA).

Disse também que falhas repetidas ou graves ao divulgar mídias sintéticas realistas podem resultar em penalidades, incluindo remoção de conteúdo ou suspensão do Programa de Parcerias do YouTube (que é o que permite a remuneração dos canais).