A religião por trás da Korin, pioneira na produção de frango orgânico no Brasil

Crédito, Vitor Serrano/BBC
O sol nem bem nasceu, e o "expediente" delas já se encerrou. Depois que a caminhonete partiu carregada de ovos, as galinhas de penas castanhas avermelhadas foram liberadas para saírem do galinheiro e ciscarem pelos arredores.
Os ovos seguiram para o centro de produção do Grupo Korin (lê-se kôrin, que significa "círculos de luz"), em Ipeúna, a 200 km de São Paulo. A marca é mais conhecida nas gôndolas dos maiores supermercados por suas linhas de frango natural e orgânico, mas também produz ovos, hortaliças, carne vermelha, peixes, mel, cereais, fertilizantes e desinfetantes naturais obtidos pela fermentação de materiais orgânicos.
Nesta granja, assim como em todas as parceiras da Korin, os animais são tratados de forma incomum. Não recebem antibióticos, são alimentados com ração livre de transgênicos e vivem com mais espaço. No plano espiritual, as galinhas castanhas e os frangos de penas brancas são recordados anualmente em uma cerimônia.
Em um gramado cercado de flores, funcionários, do chão da fábrica à presidência, realizam, todo mês de agosto, um sufrágio pelo espírito dos animais abatidos, agradecendo-lhes pela função de alimentar e nutrir os seres humanos e fazendo orações de despedida desses espíritos.
Por décadas, a Korin cultivou quase tanto discrição quanto galinhas. Sua fundação está calcada na disseminação dos ideais de Mokiti Okada (1882–1955), filósofo japonês e fundador da Igreja Messiânica Mundial, em 1935 no Japão.
Diz a história que Okada, também conhecido pelo nome religioso de Meishu-Shama ("senhor da luz"), contraiu tuberculose na juventude e estava desenganado. Mas, miraculosamente, ele melhorou, depois que passou a se alimentar somente de vegetais, cultivados de maneira natural. Isto é, sem agrotóxicos ou qualquer outro componente químico.
Produzir alimentos desta forma tornou-se um dos três pilares da religião criada por ele anos mais tarde, além de cultivar o belo, representado pelos ikebanas, arranjos florais minimalistas, que valorizam a simetria e a harmonia entre as flores e as linhas. Forma a tríade o Johrei, que consiste na canalização e transmissão de energia espiritual por meio da imposição das mãos.
Para os messiânicos, ser saudável e livre de doenças é um dos critérios para atingir o nirvana, que eles chamam de Paraíso Terrestre.
A terra é, portanto, elemento fundamental. Por isso, os messiânicos criaram na década de 1970 um polo de agricultura natural. Em um pequeno sítio em Atibaia, no interior de São Paulo, eles plantavam hortaliças e criavam alguns animais para consumo próprio.
À medida que o número de fiéis aumentou, o sítio ficou pequeno. Para expandir a produção e também partir para um modelo comercial, o polo de agricultura natural mudou-se para Ipeúna, transformou-se em empresa e ganhou o nome de Korin.
Era o início da década de 1990, a alimentação orgânica não estava na moda e bebida fermentada era sinônimo de Yakult, que — coincidência ou não — também surgiu no Japão.

Crédito, Vitor Serrano/BBC
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Por isso, muita gente, especialmente a indústria, torceu o nariz quando os alimentos da Korin começaram a chegar aos mercados com o rótulo de livres de antibióticos.
"Éramos vistos como malucos ou irresponsáveis", diz Edson Matsui, presidente do grupo. "Diziam que íamos disseminar doenças."
Passadas mais de três décadas, a Korin distribui nacionalmente os cerca de 300 produtos do seu portfólio e virou sinônimo de carne de frango natural. Responsável por 70% do faturamento da empresa, o frango da Korin aparece como chamariz em cardápios de restaurantes, rótulos de papinhas infantis e até na fórmula de ração para cães e gatos.
A ligação com a Igreja Messiânica ainda permanece estruturante: além de inspirar a filosofia da empresa, a instituição é sua mantenedora e compõe toda a sua direção. Seus fiéis — 103 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, 1,8 milhão, de acordo com a igreja hoje — têm descontos na compra de alimentos vendidos em feiras nos dias de culto.
'Um ano sem frango'
O sucesso da empresa está no controle rigoroso da sua produção. Como não trabalham com granjas próprias, os parceiros fornecedores passam por treinamentos e diversas auditorias.
Willian Fernandes Leite e Ana Cláudia Laurenti Marchini Leite fazem parte desses parceiros, chamados na empresa de "horizontais". Eles trocaram São Paulo pela região de Ipeúna há alguns anos para produzir frango.
Em dado momento, o casal rompeu com a Korin, em um "divórcio" que durou cerca de um ano. Neste período, criaram frango seguindo o processo convencional, com mais aves por metro quadrado, ração mais barata e produzida com grãos geneticamente modificados e o uso livre de antibióticos.
Assim, a rentabilidade, diz Willian, aumentou um pouco, cerca de 10%. "As aves morriam menos, e eu podia criar mais frangos por metro quadrado", explica.
Mas o lucro não foi suficiente para que o negócio perdurasse.

Crédito, Vitor Serrano/BBC
No dito popular, o olho do dono é o que engorda o gado. Neste caso, o frango. Mas, para Willian e Ana Cláudia, estar por perto não bastou para que eles consumissem a própria produção.
"Era tanto remédio e antibiótico que o bicho tomava que eu não tinha coragem de comer a carne depois", diz Willian.
Ele se refere ao uso de antimicrobianos, que são medicamentos naturais ou sintéticos — como os antibióticos — usados para matar ou inibir o crescimento de microrganismos causadores de infecções.
Na criação intensiva, ou tradicional, esses medicamentos são utilizados para acelerar o crescimento dos animais e como profilaxia de doenças, antes mesmo que elas sejam contraídas.
O resultado da experiência com a criação intensiva foi a restrição alimentar do casal. "Ficamos um ano sem comer frango", diz Willian.
Voltando a fornecer para a Korin, Willian explica que a rentabilidade não é o mais importante. "Por esse frango a gente tem mais carinho", diz.
"É um bichinho saudável que vai alimentar as pessoas. Tem coisas que o dinheiro não paga."
Os frangos do casal abastecem parte das cerca de 17,5 mil aves abatidas diariamente pela empresa, número pequeno frente ao volume da avicultura nacional de 18 bilhões de abatimentos diários, mas suficiente para consolidar a marca em nichos específicos.

Crédito, Vitor Serrano/BBC
Os produtores que abastecem a Korin de frango e ovos têm suas granjas, na maioria, espalhadas pelas redondezas da fábrica. Passam por rigorosas inspeções para garantir tanto a produção com base nos preceitos da empresa, quanto selos, como o de orgânico — quando é o caso — e o de bem-estar animal — em todos os casos.
Para comprovar o cumprimento desses requisitos na prática, as propriedades e as produções são periodicamente avaliadas por uma dezena de empresas certificadoras independentes. Cada uma delas emite um certificado diferente, com critérios ambientais e sociais.
A ausência de antibióticos na criação de frangos e galinhas também impõe cuidados redobrados com biosegurança. A reportagem não pôde entrar no aviário, apenas em uma área próxima e, ainda assim, precisou utilizar vestimentas especiais.
Em época de transmissão de vírus, como o da gripe aviária, os animais são proibidos de sair do galinheiro, já que podem se contaminar por meio de aves silvestres, norma estabelecida por parte das certificadoras.
A produção da Korin afirma considerar o bem-estar dos animais "como princípio". Além da saúde, conforto, nutrição, manejo e abate humanitários, os animais, segundo a empresa, têm o direito de "expressar comportamentos naturais inerentes à espécie e não devem ser submetidos a sofrimentos como dores, medo ou angústia".
Nessa linha, as galinhas dividem o espaço no viveiro com alguns poucos — mas fundamentais — galos. "Melhora o bem-estar, e elas ficam mais calmas", explica a veterinária do grupo, Leikka Iwamura.

Crédito, Vitor Serrano/BBC
Frango mais caro
Para garantir que o processo de agricultura natural da Korin seja seguido à risca desde o começo, a empresa adquire pintinhos com um dia de vida e realiza o acompanhamento técnico, a assistência veterinária e fornece a ração, cuja fórmula é guardada a sete chaves e não é comercializada.
Isso porque a alimentação dos animais, afirma Matsui, é um dos diferenciais da empresa. A fórmula leva somente grãos não geneticamente modificados de milho, soja e sorgo, uma opção que encarece o produto final.
Na criação tradicional, o excedente do frango, como penas, vísceras e bicos, é utilizado na produção de ração para alimentar outros frangos, reduzindo o preço da produção.
"A gente não faz isso", diz Matsui. Ali, o excedente é vendido para a indústria de ração para pet.
Ele afirma que o valor da alimentação das aves responde por 60% a 70% dos custos de produção, tornando o produto final mais caro. "Se utilizássemos grãos transgênicos, o valor cairia de 20 a 25%."
Por essas razões, os frangos "vegetarianos" da Korin acabam tendo um preço consideravelmente mais alto. A linha orgânica pode chegar a até cinco vezes mais cara, enquanto a linha natural (cuja diferença é que a ração não é feita com grãos orgânicos), pode custar até três vezes mais que o frango tradicional. O mesmo ocorre com os ovos.
Matsui afirma que o preço mais elevado é um fator importante a ser considerado na estratégia do processo de expansão da empresa. Mas reconhece que seu modelo de produção é limitado.
"A Korin não tem condições de produzir alimentos dentro desse modelo para o mundo inteiro", diz.
"Nós somos esse modelo e podemos vender esse know-how para que mais empresas queiram também produzir desta forma."

Crédito, Vitor Serrano/BBC
Depois das galinhas, tomates
Embora a Korin tenha surgido e crescido ancorada nos mesmos princípios, o grupo aposta também em inovação e pesquisa. Um dos braços da empresa é o Centro de Pesquisa Mokiti Okada, fundado em 1989, cinco anos antes da fundação da Korin.
É ali que vive a galinha dos ovos de ouro da empresa.
As tecnologias desenvolvidas por eles dão origem a diferentes produtos, todos feitos a partir de matéria orgânica não transgênica, com processos de fermentação, para diversas finalidades.
Grosso modo, os chamados bioinsumos são parecidos com a kombucha, para os mais modernos, ou o Yakult, para os saudosos.
São linhas de neutralizadores, desengordurantes e higienizadores para pets, decompostos para efluentes da indústria, reguladores e fortificantes tanto para o solo quanto para o intestino dos animais, além de fórmulas para limpar o local onde eles vivem.
Este último também elimina a amônia produzida pelos excrementos em contato com a "cama" dos animais, evitando que as aves aspirem a substância e danifiquem suas vias aéreas.
Segundo os ensinamentos de Mokiti Okada, os microrganismos do solo são fundamentais para que a terra tenha força vital capaz de gerar alimentos saudáveis.
Por isso, para chegar a essas fórmulas desenvolvidas com muita pesquisa, uma área no centro de produção de Ipeúna teve papel importante: a plantação de tomates, presente no mesmo local desde 1994.

Crédito, Vitor Serrano/BBC
"Esse campo foi muito utilizado para aperfeiçoar os bioinsumos", explica Sergio Kenji Homma, diretor-superintendente da Korin.
Hoje, os tomates enormes e vermelhos da Korin são exibidos com orgulho pela diretoria que recebeu a BBC News Brasil no centro de produção.
Mas nem sempre foi assim. "Foram anos e anos perdendo tomate", diz Matsui. Ele calcula que, nos 30 anos da plantação, ao menos durante 15 anos eles tiveram mais perdas do que ganhos.
Agricultura 'disruptiva'
Quando a Korin começou a operar, o modelo proposto pela empresa era visto como improvável. Produzir sem antibióticos, com menor densidade de criação e apostando na vitalidade do solo — em vez de fertilizantes químicos — era encarado como inviável do ponto de vista econômico.
"O que fazíamos era muito disruptivo", diz Matsui.
Hoje, o uso excessivo de antimicrobianos na pecuária brasileira levou a União Europeia (UE) a vetar a compra de carne bovina e de frango do Brasil. O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) tem até 3 de setembro para apresentar aos europeus evidências de que não usará mais esse tipo de medicamento com a finalidade de promover o crescimento ou aumentar o rendimento.
O mercado europeu tem participação relativamente pequena nas exportações de frango brasileiro — 4,5% — frente ao que importam os Emirados Árabes Unidos, Japão e Arábia Saudita, os maiores compradores de frango do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Ainda assim, a decisão da UE pode apontar para os caminhos que a indústria de carne brasileira deve seguir, se não quiser perder o posto de maior exportadora de frango do mundo.
Se há 30 anos cultivar animais sem o uso de antibióticos, plantar alimentos sem agrotóxicos e priorizar a alimentação natural era "disruptivo", hoje esses preceitos entraram na lógica de mercado.
Para Edson Matsui, não há nenhuma novidade nisso.
"Esperamos o tempo certo para quebrar esses paradigmas. E isso é um dos ensinamentos de Mokiti Okada: não é querer convencer ninguém de que o método está errado", afirma ele, com a mesma paciência de quem esperou por quase 30 anos para colher tomates vermelhos e polpudos no pé.
























