Como o PCC aparece nas investigações sobre a produtora de Dark Horse, filme sobre a vida de Jair Bolsonaro

Capa de divulgação do filme mostra ator com faixa presidencial segurando bandeira do Brasil

Crédito, Divulgação

Legenda da foto, Filme Dark Horse conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, interpretado por Jim Caviezel
    • Author, Iara Diniz
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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  • Tempo de leitura: 7 min

As investigações sobre o possível direcionamento de recursos públicos para o financiamento deDark Horse, filme sobre a vida de Jair Bolsonaro (PL), alcançaram empresas e pessoas que aparecem em contratos e subcontratações ligados ao poder público.

É nesse contexto que o Primeiro Comando da Capital (PCC) é citado nos documentos do caso, com suposto vínculo ao empresário Alex Leandro Bispo dos Santos.

Alex é apontado pela polícia como controlador da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., empresa subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para executar serviços previstos em um contrato do instituto com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de internet gratuita.

O ICB é comandado por Karina Ferreira da Gama, que também é proprietária da produtora Go Up, responsável pelo filme de Bolsonaro.

Em junho, a Polícia Civil de São Paulo deflagrou uma operação para apurar suspeitas de irregularidades na execução do contrato firmado entre o ICB e a prefeitura.

Na semana passada, a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up para investigar suspeitas de desvio de emendas parlamentares e a possibilidade de que parte desses recursos tenha sido usada para financiar Dark Horse.

Karina foi um dos alvos da operação, assim como o deputado federal Mario Frias (PL-SP), que é roteirista e produtor-executivo do longa.

A menção ao PCC dentro da investigação aparece em duas decisões recentes do ministro Flávio Dino, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

No dia 10 de setembro, ao determinar a operação e unificar na Polícia Federal e no STF as investigações sobre desvios de emendas parlamentares, Dino afirmou que havia menção "a atos ligados" ao PCC e que, segundo "órgãos de inteligência da polícia", um dos investigados era integrante da facção.

O investigado era Alex Bispo.

O possível elo foi reiterado em decisão do último domingo (13/9), quando Dino determinou a retirada do sigilo de documentos enviados pela Justiça de São Paulo que se referem à investigação.

No despacho, o ministro afirmou que se fortalecia a hipótese de uma "imbricação indissociável em um sofisticado esquema de destinação e desvio de recursos públicos", com destaque para emendas parlamentares federais e para a Prefeitura de São Paulo.

Na sequência, escreveu que essa organização "alcançaria, inclusive, vínculos com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital), consoante linha investigativa mencionada nos autos".

Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Alex Bispo negou que ele faça parte do PCC ou de qualquer organização criminosa.

Em entrevista à CNN Brasil, Karina negou que Dark Horse tenha recebido recursos de emendas parlamentares e relatou ameaças que, segundo seu relato, teriam partido de pessoas com quem teve relações profissionais e pessoais.

'Tenho escorpião do PCC'

A suspeita de ligação de Alex com o PCC não surgiu originalmente na investigação sobre o filme de Jair Bolsonaro nem na apuração sobre os contratos de internet com a Prefeitura de São Paulo.

Ela aparece em uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo sobre o feminicídio da ex-companheira de Alex, ocorrido em 29 de novembro de 2025. O Ministério Público de São Paulo denunciou o empresário pelo crime, e a Justiça recebeu a denúncia, tornando-o réu.

Em relatório produzido no dia seguinte ao crime, os investigadores registraram a possibilidade de envolvimento de Alex com o PCC.

Eles mencionam uma discussão entre Alex e a vítima, gravada por um vizinho momentos antes do crime. O áudio é transcrito no relatório.

Durante a briga, Alex diz: "Tenho escorpião do PCC, não devo satisfação".

Segundo a Polícia Civil, uma pesquisa na internet sobre tatuagens de presos encontrou a informação de que o escorpião seria "a primeira tatuagem utilizada dentro e fora dos presídios paulistas para identificar membros do PCC".

O relatório também menciona que Alex possui outras duas tatuagens, uma carpa e um dragão, e atribui significado aos símbolos no contexto das facções criminosas.

"A combinação de ambos os símbolos reforça a ideia de um membro que superou grandes desafios e alcançou um status elevado ou superior dentro da facção, representando a transformação após vencer batalhas difíceis, similar à lenda oriental onde a carpa que sobe uma cachoeira se transforma em um dragão", escreveram os investigadores.

O relatório termina pedindo a prisão temporária de Alex.

Flávio Dino

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Decisões recentes de Dino citam suposto elo do PCC com empresário ligado a dona de produtora do filme sobre Bolsonaro

A suspeita de pertencimento à facção passou posteriormente a ser citada em manifestações do Ministério Público e em decisões judiciais do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Em 4 de fevereiro de 2026, o Ministério Público de São Paulo pediu que a prisão temporária de Alex fosse convertida em preventiva e mencionou o áudio para justificar o pedido.

"[Alex] se vangloria dizendo ser um 'escorpião do PCC' e que tinha 'irmãos', tudo a indicar que ele tem proximidade com a criminalidade organizada", afirmou o Ministério Público.

No mesmo dia, a Justiça determinou a prisão preventiva.

Em 6 de agosto, contudo, durante audiência de instrução, a prisão foi revogada e Alex foi solto, com medidas cautelares.

O Ministério Público recorreu e voltou a mencionar a suposta ligação com o PCC, ressaltando que a "efetiva vinculação" de Alex à organização criminosa ainda dependeria da análise do conjunto de provas.

Para o Ministério Público, porém, "a autoproclamação de pertencimento à facção, associada às condenações anteriores e ao modo violento de execução do delito", era um dado relevante para avaliar sua periculosidade e o risco de deixá-lo em liberdade.

Em 10 de agosto, a Justiça decretou novamente a prisão preventiva de Alex. Ele não foi localizado desde então e é considerado foragido.

Segundo a polícia, Alex possui extensa ficha criminal, tendo respondido por diversos roubos e sido condenado a penas somadas que se aproximam dos 30 anos de prisão.

Ele já cumpriu pena em duas unidades prisionais paulistas onde estão detidos integrantes da cúpula do PCC: os presídios de Mirandópolis e Presidente Venceslau, no Oeste do estado.

Alex negou ligação com o PCC

Nos documentos relacionados à investigação de feminicídio, é transcrito parte de sua declaração em interrogatório, em que ele afirma não ter nenhuma ligação ou envolvimento com o PCC.

Segundo o registro do interrogatório, "indagado sobre se teria alguma ligação com o Primeiro Comando da Capital, ou com algum membro ligado ao PCC, declarou que não tem nenhuma ligação ou envolvimento com eles".

Ao ser confrontado com o áudio gravado pelo vizinho e questionado sobre se reconhece sua voz na gravação, "disse que possivelmente sim, que é sua voz".

A BBC News Brasil procurou a defesa de Alex. O advogado Eugênio Carlo Malavasi informou que, assim como estão nos autos, conforme já declarado por Alex, ele não integra o PCC ou qualquer outra organização criminosa.

Ele confirmou que Alex está foragido e que a defesa analisa a decretação da prisão preventiva.

Malavasi também disse que as explicações a respeito do áudio, por parte de Alex, foram dadas à polícia. Elas, contudo, não aparecem no material analisado pela BBC.

A relação de Alex com Karina

Alex era sócio da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., atualmente denominada Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda.

Segundo documentos da investigação, a empresa foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil para executar serviços relacionados ao projeto "WiFi Livre SP".

O contrato tinha valor global de R$ 12 milhões e, segundo a investigação, mais de R$ 2 milhões haviam sido repassados à empresa de Alex até dezembro de 2025.

Os investigadores chamaram atenção para a forma como o contrato foi elaborado. O representante da empresa aparecia inicialmente identificado apenas pelo primeiro nome, "Alex", sem sobrenome, número de documento de identidade ou CPF.

Posteriormente, segundo a investigação, o efetivo controlador da empresa foi identificado como Alex Leandro Bispo dos Santos.

Após Alex ser preso por feminicídio, a empresa foi formalmente transferida para o nome de outra pessoa que, segundo os investigadores, residia no mesmo endereço de Alex.

A polícia levantou a hipótese de que a alteração societária pudesse estar relacionada a uma tentativa de "blindagem patrimonial" e ocultação das pessoas que efetivamente controlavam a empresa.

As suspeitas de financiamento do Dark Horse

A Polícia Federal também investiga a origem de outros recursos destinados a Dark Horse, em uma frente que envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O filme entrou na mira das autoridades depois da revelação de que Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e atualmente candidato à Presidência, teve conversas com Vorcaro sobre a liberação de dinheiro para supostamente patrocinar a produção.

Em julho, a Polícia Federal solicitou ao ministro André Mendonça a abertura de um inquérito sigiloso para apurar possíveis crimes envolvendo o financiamento da obra. O pedido veio em um relatório que descrevia as interações e encontros entre o banqueiro e o filho do ex-presidente.

Mendonça determinou a instauração de um inquérito para apurar se Flávio cometeu os "crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos".

A informação tornou-se pública com o fim do sigilo de parte do caso Master, determinado na última quinta-feira (10/9) pelo presidente do Supremo, Edson Fachin.

Flávio nega qualquer irregularidade sobre o financiamento do filme sobre seu pai e chegou a dizer, em sabatina ao Jornal Nacional, que o tema estava "mais que esclarecido" e era um "livro fechado, ressignificado e na prateleira".

Ele também já afirmou diversas vezes que não foi usado dinheiro público na produção.