Como atirador conseguiu chegar tão perto de Trump e outras perguntas sobre ataque em Washington

Crédito, Nathan Howard/Getty Images
- Author, Jake Lapham
- Role, BBC News
- Tempo de leitura: 7 min
"Não consigo me imaginar em uma profissão mais perigosa", declarou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poucas horas depois de se ver envolvido em outro grave incidente de segurança.
Mesmo com um pequeno exército de agentes do Serviço Secreto americano que, possivelmente, transformam o presidente na pessoa mais protegida do mundo, mantê-lo a salvo está se mostrando uma tarefa árdua.
Primeiramente, em 2024, Trump sofreu uma tentativa de assassinato em Butler, no Estado americano da Pensilvânia, quando uma bala atingiu sua orelha de raspão.
Apenas 64 dias depois, ele voltou a ser alvo de um agressor, quando jogava no seu campo de golfe, na Flórida.
Agora, depois que novos disparos interromperam o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca no hotel Hilton da capital americana, Washington DC, a segurança de Trump está novamente sob questionamento.
O motivo e o alvo exato do suposto atirador — Cole Tomas Allen, de 31 anos — ainda não foram esclarecidos. Mas aumentam os questionamentos sobre como um homem armado conseguiu se aproximar tanto do presidente americano.
Allen foi acusado formalmente de três crimes:
- Tentativa de assassinato do presidente dos Estados Unidos e for condenado, o réu poderá pegar pena de até prisão perpétua em penitenciária federal;
- Transporte interestadual de arma de fogo com a intenção de cometer um crime. Em caso de condenação, a pena prevista é de até 10 anos de prisão federal;
- Disparo de arma de fogo durante a prática de um crime violento. Se for considerado culpado, o réu poderá ser condenado a até 10 anos de prisão federal.
A polícia informou que os agentes de segurança e o suspeito trocaram disparos em um andar do hotel, exatamente acima do local onde Trump estava reunido com outros convidados.
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Uma das incógnitas é se foram implementadas medidas de segurança suficientes no hotel que abrigava alguns dos políticos, diplomatas e jornalistas mais influentes de Washington.
O correspondente-chefe da BBC na América do Norte, Gary O'Donoghue, estava presente no jantar.
Ele declarou que as ruas em torno do Washington Hilton Hotel ficaram fechadas por horas, mas a segurança no local em si "não era particularmente grande".
"O homem na porta do lado de fora deu apenas uma olhada rápida no meu ingresso, a uma distância que devia ser de uns dois metros", escreveu ele.
As entradas para o jantar tinham impressos apenas os números da mesa, não os nomes dos convidados. Em nenhum momento, foi solicitada a identificação para entrar no hotel.
Os convidados que se dirigiam ao jantar desciam por escadas rolantes dos lobbies principais, antes de passarem pelo controle de segurança em uma área localizada um andar acima das entradas do salão de baile. E, no início do jantar, eles desciam por um lance de escada para entrar.

Crédito, Andrew Harnik/Getty Images
As imagens das câmeras de segurança publicadas por Trump nas redes sociais mostram o suspeito atravessando um dos pontos de controle, antes que os agentes do Serviço Secreto abrissem fogo. As autoridades declararam que ele portava uma espingarda, uma pistola e várias facas.
O suspeito trocou disparos com os agentes antes de ser detido.
O jornalista Wolf Blitzer, da rede americana CNN, declarou ter visto o suspeito disparar várias vezes com uma arma "muito perigosa".
Posteriormente, o presidente publicou uma foto de um homem sem camisa no chão, com as mãos algemadas às costas e rodeado por agentes do Serviço Secreto.
O procurador-geral em exercício dos Estados Unidos, Todd Blanche, declarou à rede americana NBC News que, aparentemente, o objetivo era atingir integrantes do governo, "provavelmente incluindo o presidente".
A polícia indicou que Cole Tomas Allen era hóspede do Washington Hilton, que continuou funcionando como hotel, mesmo abrigando algumas das pessoas mais poderosas do mundo.
O hotel fechou suas portas ao público horas antes do início do evento de sábado. O acesso ficou restrito aos hóspedes e às pessoas que tinham ingressos para o jantar ou para as recepções realizadas no local.
Quando Trump se sentou no salão de baile, um amplo aparato de segurança, incluindo equipes de contra-ataque fortemente armadas, se encarregou de proteger a sala, momentos depois dos disparos ocorridos no lado externo.
O ex-embaixador britânico em Washington, Kim Darroch, já havia comparecido a jantares de correspondentes anteriormente e criticou o aparato de segurança.
"Se você estivesse ali [como hóspede do hotel] e quisesse irromper no jantar com más intenções, precisaria apenas evitar um controle de segurança... e sairia no salão de baile", declarou ele ao programa de TV Sunday with Laura Kuenssberg, da BBC.
'Edifício não particularmente seguro'
O próprio Trump declarou posteriormente que o Hilton "não é um edifício particularmente seguro".
Ele destacou que o incidente demonstrou a importância do novo salão de baile da Casa Branca, atualmente em construção, cuja obra é objeto de litígio.
"Na verdade, é uma sala maior e muito mais segura", segundo Trump. "É à prova de drones. Tem vidros à prova de balas. Precisamos do salão de baile."
O presidente também elogiou a "coragem" do Serviço Secreto, que escoltou a ele e ao vice-presidente J.D. Vance para fora de cena, afirmando que eles fizeram "um grande trabalho".
Especialistas em segurança presidencial e policial destacaram que o fato de o atacante nunca ter chegado ao salão de baile indica que as medidas de segurança funcionaram.
O ex-agente do Serviço Secreto Jeffrey James, que trabalhou na proteção de Trump durante seu primeiro mandato, destacou que o agressor foi detido em "ponto de controle perimetral externo" e nunca chegou ao piso onde estava o presidente. Ele também elogiou a comunicação entre os agentes.
Questionado pelo programa Today, da BBC Rádio 4, se as imagens mostravam alguma demora na retirada de Trump de cena, James afirmou que os agentes utilizaram uma "pausa tática" de vários segundos, para se assegurarem de não cair em uma emboscada.
O ex-agente especial do FBI, Jeff Kroeger, havia declarado anteriormente à BBC que "é exatamente para isso que o Serviço Secreto é treinado".
Quando ouviram os disparos, eles "convergiram em torno do presidente", criando uma "barreira corporal", explicou ele.
Outro ex-agente do Serviço Secreto, Barry Donadio, declarou à BBC que, aparentemente, não havia "falta de agentes, oficiais e policiais" no evento.
Ao comentar sobre como poderia alterar a segurança, especialistas indicaram esperar medidas mais rigorosas para os eventos de Trump a partir de agora, como um perímetro mais amplo.

Crédito, Getty Images
O tiroteio de sábado é o mais recente episódio de violência política ocorrido nos Estados Unidos. E os dados indicam que ela vem aumentando.
Em 2023, a polícia do Capitólio americano investigou mais de 8 mil ameaças, o que representa um aumento de 50% em relação a 2018.
O assassinato de Charlie Kirk (1993-2025), ocorrido no Estado de Utah, expôs ainda mais as profundas divisões políticas existentes nos Estados Unidos.
O comentarista conservador foi vítima de tiroteio enquanto discursava em um evento da organização Turning Point USA, em um ato de violência filmado e distribuído via internet.
Meses antes, a ex-deputada estadual democrata de Minnesota Melissa Hortman (1970-2025) e seu marido Mark foram mortos a tiros. Já o esposo da ex-presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, foi atacado com um martelo. Paul Pelosi foi hospitalizado com fratura do crânio.
Entre outros presidentes que foram alvos de tentativas de assassinato, encontra-se o ex-presidente republicano Ronald Reagan (1911-2004), que foi ferido a bala por John Hinckley Jr. em 1981.
Reagan sofreu perfuração de pulmão, mas sobreviveu. O atentado ocorreu em frente ao Washington Hilton, o mesmo hotel que recebeu o jantar de sábado passado (25/4).
Questionado sobre a frequência dos ataques durante seus eventos, Trump respondeu que havia "estudado assassinatos" e que presidentes anteriores também foram alvo de ataques, como Abraham Lincoln (1809-1865).
"São figuras importantes e lamento dizer que me sinto honrado por isso, mas é que fiz muito [pelos Estados Unidos]", concluiu o presidente.






























