A cruzada de Antonio Fagundes contra os atrasados no teatro: 'Não posso deixar uma pessoa desrespeitosa atrapalhar o prazer dos outros'

Crédito, Manolla Mello/Divulgação
O relógio ganhou protagonismo na carreira de Antonio Fagundes. Com a precisão de quem segue um compasso, ele divide o tempo entre a nova novela da Globo, Quem Ama Cuida, que grava no Rio de Janeiro, e as peças Dois de Nós, que apresenta ao lado de Christiane Torloni, e Sete Minutos, que dirige, ambas em São Paulo.
Sete Minutos é uma comédia sobre um ator que abandona o palco no início de Macbeth, clássico de William Shakespeare, após ouvir um celular tocar. Quando escreveu o roteiro, no início do milênio, os aparelhos eram novidade. Agora, tudo piorou, ele diz: antes, se um ator só conseguia prender a atenção do público por sete minutos, hoje é difícil mantê-la por sete segundos.
A nova montagem, que amplia o debate sobre a relação entre plateia e palco, vem na esteira de uma cruzada que Fagundes trava contra quem chega atrasado ao teatro. Ele proíbe a entrada após o início do espetáculo, não devolve o dinheiro pago no ingresso e vê os processos chegarem.
A discussão ganhou voltagem depois que viralizou nas redes sociais. A maioria dos juízes tem se posicionado a favor do ator, mas a batalha nunca termina, ele diz, pouco depois de receber mais um processo. "Não posso permitir que uma pessoa desrespeitosa atrapalhe o prazer de quem chegou na hora."
"Quando começo, tenho 650 pessoas sentadas, e não posso desrespeitar essas pessoas, deixando que dois ou três cheguem atrasados, falando alto, com a lanterna do celular acesa, fazendo a fila inteira se levantar para eles se sentarem."

Crédito, Manoella Mello/Divulgação
Fagundes diz que o tempo de todos precisa ser valorizado, inclusive o dele, hoje dividido entre o teatro e a televisão, em um retorno que acontece sete anos após ver seu contrato de décadas com a Globo expirar e não ser renovado.
A prática se tornou comum nos últimos anos, depois que a emissora passou a abrir mão da exclusividade que mantinha com seus talentos para equilibrar as contas, seguindo um movimento que os estúdios de Hollywood haviam iniciado muito antes.
Fagundes critica o novo modelo de contratação e pagamento por obras, mas afirma estar feliz por voltar. Em Quem Ama Cuida, ele interpreta Arthur Brandão, um ricaço de família interesseira que decide deixar toda a herança para uma recém-conhecida que perdeu a casa e tudo o que tinha em uma grande enchente.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
A novela estreia nesta segunda-feira (18/5), às nove da noite, na Globo. A peça Dois de Nós segue em cartaz até o dia 31, no Tuca (Rua Monte Alegre, 1.024), com ingressos a partir de R$ 100, e o espetáculo Sete Minutos, que já tem ensaios abertos, entra oficialmente em cartaz na próxima quinta-feira (21/5), no Cultura Artística (Rua Nestor Pestana, 196), com ingressos a partir de R$ 120.
Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, Fagundes apresenta os novos trabalhos, discute as mudanças na televisão, o avanço da inteligência artificial e relembra os tempos de galã, quando se tornou o primeiro ator brasileiro a aparecer de cueca na televisão. "Nunca me considerei um homem bonito", admite.
BBC News Brasil – Depois de sete anos afastado, como tem sido voltar a fazer novelas?
Antonio Fagundes – Sempre tive um acordo com a TV Globo, nestes 44 anos em que trabalhei lá, de que só gravaria na folga do teatro, de segunda a quarta-feira. De quinta a domingo, vida que segue: fazia teatro e cinema. Esses sete anos eu fiquei de folga, porque não fazia nada na folga do teatro.
A retomada está sendo um pouco pesada, porque tinha uma série de compromissos e tive que encaixar as gravações. Estou dirigindo uma peça, produzindo outra e atuando em outra, todas em São Paulo. Estou sem tempo para dormir, mas está sendo uma felicidade, porque o elenco é delicioso e Walcyr Carrasco é um mestre. Mas é uma pequena volta, porque vou fazer os 13 primeiros capítulos e o personagem já morre.
BBC News Brasil – Quando saiu da Globo, o senhor criticou o fim dos contratos fixos de trabalho e a adoção do pagamento por obra. Como vê isso hoje?
Fagundes – Continuo na minha posição. Para ter um esquema violento de trabalho como o nosso — de três a quatro novelas por semestre, com 200 capítulos cada —, exige expertise dos atores, técnicos, câmeras, editores e de todos os envolvidos. É uma expertise que não se resolve rapidamente — chama uma pessoa aqui, outra ali, e vamos montar uma equipe. Não é assim. É como uma orquestra sinfônica: não adianta chamar um violinista, o cara do oboé e o do piano. Tem que ensaiar muito — e juntos.
Essa expertise foi desfeita quando se desfizeram dos contratos de longo prazo com todo mundo. Você tem agora na TV pessoas que não sabem fazer muito bem. Eles até sabem, mas não têm esse conjunto formado durante décadas. A gente não precisava nem conversar. Entrava e gravava 30 cenas por dia tranquilamente. Hoje, é mais complicado, porque demora para chegar a um denominador comum — e quando chega a novela acaba.
BBC News Brasil – Este é um debate curioso, no momento em que o Brasil discute a escala 6 por 1.
Fagundes – Eu cheguei a inventar o quarto período, a madrugada, para quando queria fazer alguma coisa e não sobrava tempo. Cheguei a ter 7 por 7, 24 por 24. O ator nunca obedeceu a escalas, porque não é possível.
Às vezes você vai fazer um longa-metragem e só tem 30 dias de filmagem. Agora, a lei obriga, mas é complicado, principalmente para as produções no Brasil, onde a gente não tem um capital muito grande. Dois dias de folga em um filme atrasa a produção de uma forma que a encarece e acaba quase inviabilizando. Antes, começava a filmar e ia direto, 12 horas por dia. Até hoje é assim, enquanto a legislação diz que tem que ser oito horas. É complicado, no Brasil, a nossa área fazer isso. Mas a gente tem uma vantagem sobre os outros trabalhadores: somos apaixonados pelo que fazemos.
BBC News Brasil – A TV brasileira mudou muito desde o início de sua carreira, há mais de 60 anos. O que ficou melhor e o que ficou pior?
Fagundes – A tecnologia mudou assustadoramente, as câmeras são muito melhores, o equipamento de luz é muito melhor, a edição é melhor. Mas foi um avanço que exigiu um tempo maior para produção, e perdemos o que tínhamos de vantagem em relação ao produto estrangeiro: uma série americana leva cinco meses para gravar cinco episódios, enquanto no Brasil neste mesmo tempo a gente levantava uma novela com 200 capítulos. Essa vantagem a gente perdeu e, talvez com isso, também a nossa comunicabilidade. A gente sabia fazer rápido. Agora temos que aprender a fazer devagar.
BBC News Brasil – Como o senhor vê o avanço da inteligência artificial na TV e no cinema?
Fagundes – A gente tem alguns problemas de direitos autorais, com atores sendo clonados. É bonito resgatar um Val Kilmer, já morto, para um filme, mas temos problemas nisso, principalmente no Brasil, onde nunca tivemos nossos direitos de intérpretes respeitados. Agora, pode ficar sem limites se não tivermos um freio. Mas sempre fiz teatro, e teatro é o último reduto de humanidade. Eu estou aqui. Vai lá, às nove horas, que a gente se encontra. Isso não será substituído. É cem por cento humano.

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BBC News Brasil – Por falar em teatro, o senhor acaba de vencer um processo em que foi alvo por não permitir a entrada do público após o início das suas peças. Como o público tem reagido a essa exigência?
Fagundes – As pessoas reclamam desse comportamento. A imensa maioria quer ir ao teatro para ver uma peça. Quando não permito a entrada após o início, é em respeito a essa maioria que já está sentada quando começa. Estou sendo processado mais uma vez, por uma juíza, que me processou na comarca dela, em uma cidadezinha de 35 mil habitantes.
Quando começo, tenho 650 pessoas sentadas, e não posso desrespeitar essas pessoas, deixando que dois ou três cheguem atrasados, falando alto, com a lanterna do celular acesa, fazendo a fila inteira se levantar para eles se sentarem. É por isso que a gente apaga a luz, ilumina o palco, tem silêncio, tem um ar-condicionado confortável. É para o espectador não pensar em mais nada a não ser em se envolver com aquela mágica depois que a cortina se abre.
Não posso permitir que uma pessoa desrespeitosa atrapalhe o prazer de quem chegou na hora. Já ouvi falar até de uma brincadeira na internet, de que querem propor a "Lei Antonio Fagundes", para que os espetáculos comecem rigorosamente no horário e não seja permitida a entrada após o início.
BBC News Brasil – Sua próxima novela, Quem Ama Cuida, começa com uma enchente, uma tragédia cada vez mais comum. Como o senhor vê essa aproximação com a realidade?
Fagundes – É uma realidade quase mundial, porque, se não é uma enchente, é uma nevasca, uma tragédia qualquer. O mundo está passando por essas convulsões. Foi um acerto do Walcyr retratar um pouco dessa realidade. Não é um documentário, uma tese, mas dentro de uma ficção há personagens com os quais a gente pode se aproximar porque essa é nossa realidade. É uma característica da telenovela brasileira: ter essa responsabilidade social de, mesmo que superficialmente, passar por cima de problemas que atingem grande parte da população.
BBC News Brasil – Seu personagem participa dos primeiros 13 capítulos e morre. Existe alguma chance de ele retornar?
Fagundes – Seria complicado, porque minha agenda está tomada até o fim do ano. Acho que não vai acontecer. Mas é um personagem forte, que cresceu sozinho em uma família remediada e virou um bilionário, dono de uma joalheria famosa. A família vive às custas dele. Mas acontece um acidente, ele se vê absolutamente sozinho e percebe que a relação que mantém com a família é desumana, interesseira. Aí ele conhece uma pessoa que perdeu tudo na enchente e, para se vingar da família, deixa toda a herança para essas pessoas. Mas logo é assassinado. Começa, então, a novela.

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BBC News Brasil – Sim, inclusive em relação ao seu personagem em Vale Tudo, Ivan, no ano passado. Houve muitas comparações entre a sua versão e a do remake, e o debate tocava muito na masculinidade dos personagens.
Fagundes – Isso é uma coisa que foge da nossa mão. Sempre disseram que eu era galã, mas nunca me considerei um homem bonito. É muita bondade da parte deles, mas foge da nossa mão. Quem determina quem é bonito ou não, quem é galã, quem deve ser seguido, é o público. Está nas mãos deles. Carisma é uma palavra que vem do grego, charis, graça divina, você nasce com aquele carisma ou não. Não adianta querer ser. Pode pentear o cabelo na moda, fazer a sobrancelha e o nariz na moda, e não resultar em um galã.
BBC News Brasil – O senhor é conhecido por reunir atores em casa para debates e reivindicações da classe. Ainda faz isso? A classe artística está mais ou menos unida hoje?
Fagundes – Sempre foi muito difícil a gente conversar, porque nossa profissão é sofrida. A gente nunca teve estabilidade. A condição do ator é sempre o desemprego. Tivemos o período áureo da Globo em que tivemos uma certa estabilidade, mas foi um número reduzido de pessoas. A grande massa de quem trabalha com teatro, cinema e televisão no Brasil sempre ficou desempregada.
É muito complicado, em um sistema em que você nem tem emprego, discutir direitos e reunir as pessoas em torno de uma ideia. É muito complicado fortificar um sindicato, porque isso existe onde há concorrência e disputa pelo mesmo talento. Quando não tem essa luta, o sindicato não tem sentido, os direitos vão ser discutidos depois. Primeiro vamos conseguir um emprego, um salário digno.
É complicado reunir esse pessoal, mas continuo tentando. Existe uma vontade. Fiz isso durante cinco anos, e as pessoas iam, mas a gente sempre esbarra na realidade, que é mais complicada do que gostaríamos.




























