Por que um veterano das Guerras Napoleônicas tem sido invocado para compreender a Guerra do Irã

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- Author, Luiz Antônio Araújo
- Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
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Quando a Guerra do Irã estava prestes a completar cinco semanas, em 1º de abril, o site norte-americano The Debriefpublicou uma entrevista sobre o assunto feita por meio de inteligência artificial (IA) com um general morto havia muito tempo.
Em vez de Napoleão Bonaparte, William Tecumseh Sherman ou Erwin Rommel, o escolhido foi um prussiano que, em vida, não desfrutou de celebridade comparável aos três primeiros.
Carl von Clausewitz (1780-1831) não imprimiu sua visão a cada aspecto da arte da guerra como Napoleão, não expandiu os limites da ação militar como Sherman, muito menos foi um gênio operacional do porte de Rommel.
Quando se trata de refletir em termos teóricos — e para alguns, até mesmo filosóficos sobre a guerra —, porém, é o legado de Clausewitz que faz sombra aos outros.
É por isso que, sempre que um conflito de grandes proporções sacode o mundo, seu nome e suas ideias são lembrados.
A diretora da Academia de Estado-maior das Forças Armadas da Alemanha, Beatrice Heuser, vê o interesse por Clausewitz como sinal da atualidade de seu pensamento.
"Clausewitz continua sendo lido hoje porque foi a primeira pessoa a escrever sobre a guerra não do ponto de vista da ética ou da teologia, não a fim de fornecer um manual de princípios de guerra [com indicações do tipo de que] se você fizer X, Y ou Z, você ganhará a batalha", afirma Heuser, de Berlim, em entrevista à BBC News Brasil.
"[O objetivo de Clausewitz foi] apenas refletir sobre a guerra a fim de compreender melhor o fenômeno e extrair disso percepções sobre sua natureza e a maneira como é influenciada pela política."

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Militar influenciou governantes e filósofos
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Diferentemente dos autores que o precederam, o militar nascido em uma família nobre de Burg bei Magdeburg, no reino da Prússia, via a guerra como uma disciplina com recursos e leis próprias, que tem por finalidade obrigar o derrotado a agir de acordo com os desígnios do vencedor.
O pensamento de Clausewitz influenciou do Duque de Wellington ao executivo norte-americano Jack Welch, passando pelo líder comunista russo Vladimir Lenin, pelo filósofo francês Raymond Aron e pelo Nobel de Economia norte-americano Thomas Schelling.
"Clausewitz fornece o único arcabouço conceitual consistente para analisar o relacionamento entre a atividade combatente, a capacidade combatente e as demandas de uma sociedade ou um grupo em interação com outros grupos e sociedades que podem combater", afirma Eugenio Diniz, coordenador do Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa.
As perguntas formuladas pelo The Debrief dão uma ideia do porquê um veterano das Guerras Napoleônicas pode ter relevância na análise de um conflito travado com mísseis balísticos e drones.
"Como devemos julgar a decisão dos Estados Unidos e Israel de ir à guerra contra o Irã?", "O que o sr. pensa sobre os objetivos declarados de guerra de Estados Unidos e Israel?" e "Quais os sucessos estratégicos que Estados Unidos e Israel atingiram até agora?" foram alguns dos questionamentos para os quais o chatbot simulou respostas baseadas nos escritos de e sobre Clausewitz.
"O fato de tentarmos entender quais eram os objetivos dos Estados Unidos na guerra deriva muito de que pelo menos alguma coisa aprendemos com o velho prussiano [Clausewitz]", diz Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-maior do Exército (Eceme).
O pesquisador sustenta que, enquanto parece fácil identificar as finalidades iranianas e israelenses, não se pode dizer o mesmo das norte-americanas.
"O objetivo americano é conter a China? Criar problemas para a Europa? Dominar o Irã? Deter o controle de mais uma fonte de energia no mundo e, assim, de mais de 60% da produção de petróleo global?", questiona.
"Só o fato de elencarmos todas essas razões já demonstra que não temos certeza sobre a estratégia dos Estados Unidos nesse conflito."

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Professor de Relações Internacionais na Universidade de St. Andrews, em Edimburgo, Reino Unido, Hew Strachan afirma que, embora Da Guerra reflita a experiência de Clausewitz no início do século 19, seu propósito era compreender "a guerra como fenômeno".
"Como ele não estava observando a guerra de um prisma tecnológico, e sim social e político, foi capaz de dizer coisas de relevância contínua. Ele estava levantando questões em vez de produzir respostas superficiais."
Dias depois da publicação da entrevista do The Debrief, a revista britânica The Economist exibiu na capa uma imagem de bombardeio sobre o Irã com o título "Uma guerra sem estratégia".
Derivada do grego, a palavra estratégia significa literalmente comando de exército.
Clausewitz emprega o termo para designar a competência central do chefe militar: conduzir suas forças à realização de determinados objetivos.
Sínteses de seu pensamento começam invariavelmente por uma famosa definição de guerra.
O prussiano escreve: "a guerra é uma mera continuação da política por outros meios" (tradução livre do alemão "Der Krieg ist eine blosse Fortsetzung der Politik mit anderen Mitteln").
A sentença encontra-se em seu livro mais célebre, Da Guerra, que deixou inacabado e foi editado e publicado postumamente por sua viúva, Marie von Clausewitz, em 1832.
Autor de uma história da principal obra de Clausewitz (Clausewitz's On War: a biography, em tradução livre Da Guerra, de Clausewitz: uma biografia), Strachan afirma que a ideia motriz do livro é "o impacto da estratégia como uma maneira de conduzir a guerra".
"Clausewitz definiu estratégia como o uso da batalha para os propósitos da guerra. Ele celebremente disse que a guerra é a continuação da política por outros meios."
"Nem os Estados Unidos nem Israel parecem ter uma estratégia coerente de acordo com esses critérios, mas o Irã a tem", observa.
'Objetivos podem mudar durante o conflito'
Apontando as dificuldades de análise a partir das informações existentes, Diniz faz um balanço distinto.
Para o pesquisador, o Irã foi "dramaticamente enfraquecido", Israel está "bastante fortalecido regionalmente" e os Estados Unidos, "pelo menos por enquanto saem, do ponto de vista das balanças de força relevantes, significativamente fortalecidos".
"O mais difícil é saber o que acontecerá com o regime iraniano: embora ele aparente não ter sido derrubado, há fortes indícios de um ambiente caótico, que não funcionaria mais, na verdade, nos moldes anteriores ao final de fevereiro", acrescenta.
Ressaltando que não se refere especificamente à Guerra do Irã, mas sim a qualquer conflito, Heuser enfatiza a importância dada por Clausewitz à clareza estratégica.
"A propósito de qualquer guerra, ele [Clausewitz] diz que você não deveria embarcar nela a menos que tenha uma ideia clara de seus propósitos nessa guerra, quais são seus objetivos, o que você está tentando impor ao outro lado em termos do propósito da guerra, mas você deveria também entender qual é a natureza da guerra", assinala.
"Assim compreendida a natureza da guerra, ela é limitada? Os propósitos são limitados? São muito extensos? São ilimitados? É uma guerra na qual você está falando da existência de um país ou simplesmente sobre a concessão de um alvo particular de uma pequena fração de território ou o que seja?"
Na contramão de Clausewitz, porém, a pesquisadora afirma que combatentes podem modificar os próprios objetivos no decorrer do conflito.
"Eu realmente penso, diferentemente de Clausewitz, que em uma guerra é possivelmente necessário ajustar seus objetivos de guerra em função do que você pode atingir e também do que você está descobrindo sobre o adversário", explica.
"Assim, desse ponto de vista, os comentários de Clausewitz podem não se aplicar a toda guerra."
"Os comentários de Clausewitz de que você deveria ser totalmente seguro sobre o propósito quando você começa, ou de que esse deve ser um propósito ao qual você se agarra durante a guerra [são discutíveis], porque você pode ter de mudá-los à luz dos desdobramentos e à luz do que você descobre", observa a pesquisadora, que ministra disciplinas sobre estratégia e estudos estratégicos na Academia de Estado-maior das Forças Armadas da Alemanha.
Significativamente, o conceito de guerra como continuação da política não é o único presente em Da Guerra e no restante da obra clausewitziana.
Clausewitz sobre a guerra: 'camaleão que adapta suas características'
O prussiano escreve também que a guerra é "um camaleão que adapta suas características a um determinado caso".
Assim, em vez de fornecer uma definição fechada, Clausewitz enfatiza o caráter mutável da guerra dependendo das circunstâncias em que é travada.
Nesse aspecto, a Guerra do Irã parece ter dado razão ao general: poucas guerras recentes tiveram caráter mais camaleônico do que a iniciada em 28 de fevereiro.
Nos primeiros dias do conflito, Estados Unidos e Israel apresentaram múltiplos propósitos para o ataque, do fim do regime em Teerã à eliminação da atividade nuclear do inimigo para fins militares.
Mais de dois meses depois, os norte-americanos estão às voltas com o bloqueio do estreito de Ormuz, enquanto os israelenses conduzem a quarta grande invasão do Líbano desde 1978.
Dos quatro objetivos iniciais, porém, não apenas nenhum foi atingido como todos parecem cada vez mais distantes, afirmam analistas.
Clausewitz afirma também que a guerra é composta de uma "notável trindade" de elementos: ódio, oportunidade e objetivos políticos.
O primeiro é associado pelo autor ao povo, o segundo, ao corpo militar, e o último, ao governo ou Estado.
"É muito complicado o fato de que nessa trindade, você não apenas tem três fatores que podem variar, mas eles também influenciam um ao outro", afirma Heuser.
"E desse ponto de vista, Clausewitz teria finalmente argumentado que você não pode prever o fim de uma guerra, que você não poderia decidir por antecipação o que vai acontecer, que você tem de arriscar se você vai iniciar uma guerra, porque muitos fatores diferentes a influenciam, e particularmente essa trindade de ódio, oportunidade e objetivos políticos."
"É muito difícil calcular ou mesmo apostar em um desfecho", sustenta.



























