As teorias da conspiração sobre 'cientistas desaparecidos' nos EUA que deixam famílias perplexas

Crédito, CalTech
- Author, Sheila Flynn
- Role, BBC News
- Tempo de leitura: 7 min
O desaparecimento e a morte de ao menos dez pessoas ligadas a pesquisas sensíveis nos Estados Unidos têm atraído a atenção de investigadores amadores na internet e, agora, de autoridades federais. Para os parentes das vítimas, as especulações em torno desses acontecimentos são "repugnantes".
Carl Grillmair "riria" das teorias conspiratórias sobre sua morte, afirma sua viúva, Louise Grillmair. "Acho que é um absurdo completo. Quero dizer, há fatos, e eles estão disponíveis."
Seu marido, de 67 anos, foi morto a tiros em fevereiro na casa do casal em Llano, na Califórnia, nos EUA.
O suspeito de matar Grillmair, Freddy Snyder, de 29 anos e morador da região, foi acusado de homicídio e invasão de propriedade e deve comparecer à Justiça na próxima semana para a audiência inicial.
Apesar da prisão do suspeito, Grillmair aparece com destaque em teorias conspiratórias sobre as mortes e os desaparecimentos de cerca de dez pessoas ligadas a laboratórios com acesso a informações sigilosas ou trabalhos científicos.
Esses casos costumam ser agrupados sob o rótulo de "cientistas desaparecidos", mas a lista inclui uma assistente administrativa, um general da Força Aérea, um engenheiro e um zelador, e abrange diversas áreas, da pesquisa sobre exoplanetas à indústria farmacêutica.
Os investigadores amadores na internet sugeriram que os casos podem estar conectados, o que levou o Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA e o FBI (a polícia federal americana) a anunciarem investigações, apesar de outras explicações já estabelecidas e das tentativas dos familiares de conter a histeria em torno dos casos.
A esposa de Grillmair, Louise, acredita que o marido foi alvo de um plano de vingança equivocado.
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Meses antes do crime, um homem teria "entrado [na propriedade do casal] com um rifle", alegando estar caçando coiotes. Segundo ela, seu marido o orientou a seguir até uma área próxima.
O homem também vinha causando problemas em outras casas da região, afirma. Um morador chegou a ligar para o número de emergência (911, nos EUA). Grillmair não fez a ligação, mas sua esposa acredita que o suspeito o culpou por isso, já que o seu comportamento vinha "escalando".
Duas semanas antes do crime, o mesmo homem voltou com um taco de beisebol, mas foi embora sem causar mais problemas naquele dia, segundo ela.
Então, em 16 de fevereiro, ele voltou e supostamente atirou fatalmente em Grillmair, um astrônomo renomado do centro de ciência e dados IPAC, do California Institute of Technology (Caltech), voltado à astronomia e à ciência planetária.
"Achamos que [ele] veio para se vingar, acreditando que Carl [Grillmair] havia feito a ligação para o 911", afirma Louise.
Ela diz que o falecido marido era "provavelmente a pessoa mais gentil que já pisou na face da Terra".
Os céticos têm contestado as teorias mirabolantes em torno das mortes.
"A força de trabalho dos EUA com acesso a informações ultrassecretas nas áreas aeroespacial e nuclear é de cerca de 700 mil pessoas", escreveu o jornalista científico, investigador e desmascarador de pseudociências Mick West em 16 de abril, em sua página no Substack, plataforma de publicações de newsletters e artigos na internet.
"A mortalidade esperada ao longo de 22 meses prevê cerca de 4.000 mortes, aproximadamente 70 homicídios e cerca de 180 suicídios. A lista tem 10… As mortes são reais. O luto das famílias é real. O padrão não é."
Louise Grillmair também afirma que, embora seu marido fosse rir da especulação de que as mortes estariam ligadas, ele também "provavelmente recorreria a dados estatísticos" para refutar as teorias conspiratórias.
A esposa do general reformado da Força Aérea William Neil McCasland — o mais graduado e mais conhecido entre os desaparecidos da lista — recorreu ao Facebook na semana seguinte ao desaparecimento do marido, em 27 de fevereiro, de sua casa no Novo México, nos EUA, para "esclarecer parte da desinformação em circulação".

Crédito, Bernalillo County Sheriff's Office
Mesmo em sua ligação para o 911 (o número de emergência nos EUA), três horas após retornar de uma consulta médica e descobrir que o marido havia desaparecido, Susan McCasland Wilkerson disse ter "indícios de que ele pode ter planejado não ser encontrado".
Ela disse ao atendente que o marido havia desligado o celular e o deixado em casa, mas levado sua arma, embora ele "normalmente não" carregue uma.
Ela também afirmou que o marido vinha sofrendo recentemente de ansiedade, perda de memória de curto prazo e insônia, e que ele "dizia que, se sua mente e seu corpo continuassem a se deteriorar, não queria viver assim".
No Facebook, uma semana depois, ela escreveu que, embora McCasland tivesse tido acesso, durante a sua carreira na Força Aérea, a "alguns programas e informações altamente sigilosos", ele havia se aposentado "há quase 13 anos e, desde então, possui apenas autorizações de segurança muito comuns. Parece bastante improvável que ele tenha sido levado para que lhe extraíssem segredos muito desatualizados".
Ela também reconheceu que McCasland havia atuado como consultor não remunerado para o projeto To The Stars (Para as Estrelas, em tradução livre), do vocalista da banda Blink-182 Tom DeLonge, enquanto o grupo buscava investigar óvnis e outros temas.
Mas seu marido "não tem nenhum conhecimento especial sobre corpos extraterrestres ou destroços do acidente de Roswell armazenados em Wright-Patt", escreveu Susan.
Ela se referia à Base Aérea de Wright-Patterson, em Ohio, nos EUA, que, segundo teorias sobre óvnis, poderia abrigar restos de origem extraterrestre provenientes de destroços incomuns encontrados por um fazendeiro em Roswell, no Novo México, nos EUA, em 1947.
Abordando as teorias conspiratórias com ironia, Susan escreveu: "A esta altura, sem absolutamente nenhum sinal dele, talvez a melhor hipótese seja a de que os alienígenas o teleportaram para a nave-mãe. No entanto, não houve nenhum registro de uma nave pairando sobre as montanhas Sandia."
Oito meses antes do desaparecimento de McCasland, também no Novo México, mas a cerca de 220 km, em Taos, uma assistente administrativa do Laboratório Nacional de Los Alamos desapareceu.
A família de Melissa Casias também se manifestou sobre o caso no Facebook, novamente indicando que ela teria partido voluntariamente. As declarações pouco diminuíram o interesse de conspiracionistas pelo caso dela.
"Foram as seis semanas mais difíceis de nossas vidas sem você", escreveu seu marido, Mark Casias, no Facebook em agosto de 2025. "Eu e Sierra estamos cada dia mais preocupados com você. Acreditamos que você esteja bem, mas não entendemos por que não entrou em contato."

Crédito, Getty Images
Outros casos, como o de Grillmair, tinham explicações simples e diretas.
O físico do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Nuno Loureiro foi assassinado por um ex-colega de turma, que também foi preso por outros homicídios na Universidade Brown, e confessou os crimes em gravações de vídeo posteriormente encontradas pelas autoridades.
Outro pesquisador desapareceu de sua casa no mês seguinte à morte dos pais, que faleceram com poucas horas de diferença: o pai sofreu um ataque cardíaco fatal em seus braços logo após a morte da mãe.
O corpo do filho do casal foi encontrado mais tarde em um lago, e sua esposa contou à imprensa dos EUA o quanto o marido, filho único, estava profundamente abalado após a morte dos pais.
Outro cientista morreu de "doença cardiovascular arteriosclerótica" aos 59 anos, segundo laudo do legista de 2023.
Louise Grillmair disse que as explicações não parecem ser suficientes para deter os conspiracionistas. Ela própria chegou a ser "procurada por muitos deles" em busca de sua opinião.
"Eu disse: 'Bem, posso fazer melhor do que dar uma opinião'", afirma. "Eu tenho os fatos."
A especulação, diz ela, é "desrespeitosa com a memória deles".
Outros familiares ouvidos pela BBC chamaram as teorias de "terríveis" e "repugnantes", afirmando que elas agravam o sofrimento das famílias, mas preferiram não falar publicamente para não dar ainda mais visibilidade às histórias.
Para Louise Grillmair, que conheceu o marido em uma aula de astrofísica, o ideal seria que ele fosse lembrado não apenas por seu trabalho científico inovador, mas também por seu caráter generoso e solidário.
"Ele ajudava qualquer pessoa que precisasse", diz. "Por exemplo, ele sofreu dois acidentes de carro bastante graves… e não acreditava em processar judicialmente ninguém. Quero dizer, foi culpa dos outros motoristas, e mesmo assim ele se recusava a entrar na Justiça."
Seu obituário descreve Grillmair como "um piloto entusiasta, que voava em pequenas aeronaves e planadores que ele mesmo possuía e mantinha em sua casa; ele aceitava com prazer os pedidos para voar com ele".
"Amigos e colegas lembram que ele adorava atividades ao ar livre, dirigir tratores e fazer reparos e outros trabalhos de construção em sua casa, onde também mantinha um pequeno observatório com vários telescópios."
Sua esposa acrescenta que ele "tinha um padrão moral muito elevado… ele praticava o que pregava".



























