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O que vai acontecer com dólar e juros após derrocada dos mercados financeiros com vitória de Lula

Crédito, REUTERS/Jean Carniel
A segunda-feira (26/10) foi "sangrenta" nos mercados financeiros, após a virada histórica que deu a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A bolsa de valores de São Paulo teve a operação interrompida por um circuit breaker logo na abertura das negociações, após registrar queda de mais de 10%.
Depois de retomados os negócios, o Ibovespa continuou em baixa acentuada, mas o mecanismo de proteção para momentos de forte volatilidade não voltou a ser acionado.
Já o dólar à vista chegou a encostar em R$ 5,60 pela manhã, e era negociado acima de R$ 5,40 no meio da tarde, após ter fechado na sexta-feira (23/10) em R$ 4,99. Os juros futuros também apresentaram forte estresse, com alta de até 3 pontos percentuais nos contratos para 2031.
Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), explica que o movimento é uma correção de posições, diante da quebra de expectativa dos agentes do mercado, que estavam absolutamente convencidos de uma vitória de Flavio Bolsonaro (PL).
"Tinha muitas posições montadas no longo prazo, prevendo uma estabilização da economia, com maior rigor fiscal, mesmo que, naquele momento, [Flávio] não tivesse um plano ainda delineado – tinha basicamente uma declaração de intenções", diz Santos Filho.
Um cenário de maior rigor fiscal permitiria ao Banco Central baixar a taxa de básica de juros, o que estimularia o crescimento da economia e a valorização dos ativos financeiros.
"O mercado estava acreditando num cenário otimista, que os preços de ativos iam se valorizar com a possível eleição do Flávio Bolsonaro", observa Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos.
"Como não veio esse cenário e veio no lugar um cenário que o mercado considera ruim, os agentes estão revisando o que tinham de premissa para os preços", explica Sobral.
"Então, por exemplo, uma ação que se esperava que ia valer R$ 40, agora se espera que valha R$ 20, com isso, não vale a pena manter essa ação e as pessoas vendem", exemplifica.
E o que vai acontecer com dólar e juros à frente?
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Ambos os analistas avaliam que o mau humor do mercado deve continuar nos próximos dias, mas mais para o fim de semana, os ativos devem buscar um novo equilíbrio, porém, em patamares distintos daqueles que eram observados antes do segundo turno.
"O dólar, por exemplo, vai permanecer estruturalmente mais alto do que estava na semana passada, vai seguir operando acima dos R$ 5, a menos que alguma coisa muito extraordinária aconteça", diz o professor da ESPM.
Quanto à bolsa, Santos Filho observa que o choque desta segunda-feira foi muito exagerado, então, nos próximos dias empresas exportadoras, com receitas em dólar e menos expostas aos juros devem se recuperar, já que elas se beneficiam da desvalorização da moeda brasileira.
Já os juros são uma incógnita maior. Antes do segundo turno, o mercado esperava novos cortes da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) marcadas para novembro e dezembro.
Atualmente, a taxa está em 13,75% ao ano, após ter começado o ano em 15%.
Agora, a continuidade da trajetória de queda da Selic vai depender do que acontecer com o dólar, já que a desvalorização da moeda brasileira tem efeito inflacionário, porque a economia é em grande medida dependente de importações, explica Santos Filho.
"A Selic passa a depender de como o dólar vai se comportar, e isso vai depender da resposta fiscal do governo, que terá que se posicionar rapidamente para tentar acalmar o mercado", afirma.

Crédito, REUTERS/Pilar Olivares
Para Luciano Sobral, da NEO Investimento, a continuidade ou não da "sangria" dos mercados vai depender ainda do comportamento dos investidores estrangeiros.
"Acredito que tem espaço para, por várias semanas, ter essa pressão de venda de ativos em real para mandar dinheiro para fora", afirma.
"Isso pode ou não ser compensado por duas coisas: uma é o investidor estrangeiro, se ele achar que os preços ficaram baratos e comprar o que o investidor local está vendendo, compensando um pouco do movimento", pondera.
E o segundo elemento, diz ele, é como o governo eleito vai escolher lidar com o mercado, sabendo que, se o câmbio não se estabilizar, ele vai ter um problema de inflação lá na frente.
"Por enquanto, sabemos muito pouco sobre isso, não sabemos como o governo, em formação ou em transição, vai encarar a gestão da política econômica."
Contas públicas e o nome para a Fazenda
Para Cassio Viana de Jesus, diretor de investimento da Pilar Capital, tudo vai depender agora de o que o governo Lula vai sinalizar para o futuro das contas públicas, após uma campanha eleitoral em que o petista anunciou promessas diversas que criam gastos bilionários para os próximos anos.
O gestor observa que as estimativas de economistas indicam que a estabilização da trajetória da dívida pública exigiria a construção de superávits primários da ordem de 1,5% a 2% do Produto Interno Bruto (PIB), o que evidencia a dimensão do desafio fiscal para os próximos anos.
Superávit primário é a economia que o governo faz – a diferença positiva entre suas receitas e despesas, antes de pagar os juros da dívida pública. Quando essa diferença é negativa, há déficit primário.
"A composição da equipe econômica, a formação da base de sustentação do governo no Congresso, a articulação dos partidos de oposição na Câmara e no Senado e a capacidade de construir consensos em torno de reformas estruturais serão determinantes para a percepção de risco", afirma o analista.
"Eventuais disputas institucionais e incertezas jurídicas-eleitorais também poderão influenciar esse processo. Enquanto essas definições permanecerem em aberto, é razoável esperar maior volatilidade nos mercados de câmbio, juros e ações."
Assim, uma das notícias mais aguardadas agora pelo mercado é quem será o escolhido de Lula para a Fazenda.
Na imprensa, os nomes que mais têm sido aventados são os do vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, que cresce nas especulações após a deferência demonstrada por Lula a ele e ao ex-governador do Ceará Camilo Santana, após a vitória do domingo.

Crédito, Governo Piauí/Divulgação
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, da ESPM, dentre os dois, Alckmin tem a trajetória mais conhecida e pode ser percebido como alguém do governo atual mais próximo do mercado.
Já Fonteles, que tem mestrado pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e foi secretário de Fazenda do Piauí antes de se tornar governador do Estado, seria uma opção "mais técnica", mas que pode acabar ficando muito atrelado à Presidência, como aconteceu com o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Luciano Sobral, da NEO Investimentos, tem percepção distinta.
Segundo ele, à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Alckmin levou a "agenda da Fiesp" para dentro do governo, uma política mal vista pelo mercado, que considera os incentivos e proteções à indústria como uma forma de ineficiência econômica.
"Isso deixou uma impressão ruim da passagem dele por lá, então Alckmin não resolve o problema de ser um 'fiador do ajuste'", avalia.
Já Fonteles circulou pela Faria Lima nos últimos meses e deixou uma boa impressão, além de ter sido um bom secretário da Fazenda e bom governador, afirma.
"Mas ele é um ponto de interrogação, não é um nome que o mercado fala 'nossa, horroroso', mas não é uma compra de credibilidade imediata", opina.
























