As desculpas de joelho que o Vaticano fez a povoado no Peru: 'Fizeram o que queriam conosco porque somos pobres'

Crédito, Vatican News
- Author, Isabel Caro
- Role, Da BBC News Mundo
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- Tempo de leitura: 9 min
De joelhos. Com esse gesto inusitado, representantes da Igreja Católica pediram perdão no fim de maio às comunidades camponesas herdeiras do povo indígena Tallán, no Peru.
Durante anos, elas denunciaram o roubo de suas terras e a perseguição por parte de empresas ligadas ao Sodalício de Vida Cristã, um agrupamento religioso ultraconservador fundado em 1971 por Fernando Figari e que foi suprimido por ordem do papa Francisco em abril de 2025.
A decisão do falecido pontífice ocorreu após a investigação das denúncias de abusos sexuais e corrupção que o Sodalicio enfrentava no país sul-americano.
"Estamos aqui para pedir perdão em nome da Igreja. Chegamos tarde, deveríamos ter chegado há 20 anos, e sentimos muito por isso", disse na missa celebrada na cidade de Catacaos, no noroeste do Peru, monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano para a fase de dissolução do sodalício no Peru.
Representantes da Igreja pedem perdão à comunidade San Juan Bautista de Catacaos.
A homilia foi realizada a pedido da comunidade camponesa San Juan Bautista de Catacaos, após um processo de escuta liderado por monsenhor Jordi Bertomeu.

Crédito, Cortesia da comunidade de Catacaos
Em conversa com a BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, Bertomeu afirmou que foi um momento emocionante em que sentiu um peso histórico sobre seus ombros.
"Comovia estar ao lado de uma representação das autoridades eclesiais do Peru de joelhos diante daquele povo tão pobre, que nunca teve o apoio institucional de ninguém", afirmou.
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"Senti tristeza por ter chegado vinte anos tarde e, sobretudo, vergonha pelo que pessoas da Igreja às vezes fizeram e não quiseram assumir... O Sodalicio foi uma estrutura abusiva que Francisco suprimiu pelo bem das vítimas. Leão 14 quer que aprendamos com o erro, porque isso não pode voltar a acontecer", acrescentou.
Segurando flores brancas, membros da comunidade San Juan Bautista de Catacaos presenciaram o gesto que classificaram como um ato de justiça.
"São anjos enviados por Deus para ouvir as vozes dos nossos camponeses, temos pedido aos gritos ajuda e justiça", afirmou Percy Maza, membro da comunidade que denuncia ter sido perseguido e criminalizado por defender sua terra.
"Fizeram o que quiseram conosco porque somos pobres, somos do campo, não conhecemos as leis", disse Paula Sandoval, de 58 anos e mãe de Percy Maza.
"Que os padres, desde tão longe, tenham vindo nos pedir perdão nos comoveu. Graças a Deus chegou a justiça divina", acrescentou.

Crédito, Cortesia da comunidade de Catacaos
Uma transferência questionável
Camponeses, advogados e jornalistas que investigaram o caso explicaram à BBC Mundo que a suposta tomada das terras da comunidade San Juan Bautista de Catacaos remonta a 1998.
Seus direitos territoriais, segundo afirmam seus membros, derivam de reconhecimentos comunitários da época do Vice-Reino do Peru (durante o período colonial espanhol) e até pré-coloniais.
Eles alegam que as propriedades lhes pertenciam coletivamente como herdeiros dos Tallán, considerados um dos povos originários mais antigos do norte do Peru.
Por não terem títulos de propriedade individuais, em 18 de dezembro de 1998 foi registrada nos registros públicos uma transferência supostamente fraudulenta desses territórios.
Os moradores denunciaram que, mediante uma suposta assembleia, a comunidade teria decidido transferir quase 10 mil hectares de suas terras em favor de 100 camponeses.
O curioso — dizem — é que os próprios camponeses desconheciam a realização dessa assembleia.

Crédito, Cortesia da comunidade de Catacaos
Ao acessar os registros e compará-los, perceberam que várias das pessoas que supostamente participaram estavam mortas no momento da transferência ou afirmavam não ter assinado a ata.
Os terrenos foram transferidos nos anos posteriores por esses 100 camponeses na forma de aporte de capital à empresa Pampa Loma Vega, que os repassou sucessivamente a outras empresas, entre elas à Asociación Civil San Juan Bautista, ligada ao Sodalício de Vida Cristã.
"Naquele momento ninguém vinculava tudo o que acontecia em Piura (onde fica Catacaos) ao Sodalício. Não era conhecido que havia uma ligação tão clara entre o poder econômico e religioso", diz à BBC Mundo a jornalista Paola Ugaz, que investigou por anos os vínculos econômicos da organização religiosa no Peru.
A Asociación Civil San Juan Bautista foi fundada por um dos líderes históricos do Sodalício no Peru e ex-arcebispo de Piura, José Antonio Eguren, que posteriormente seria expulso da organização por decisão do Vaticano.
E, embora Eguren tenha renunciado ao conselho da empresa ao assumir funções eclesiásticas, aqueles que conhecem o funcionamento da companhia asseguram que o movimento religioso continuou exercendo ampla influência em suas decisões.
Eguren negou em 2024 ser "um personagem em uma trama de tráfico de terras em Piura".
Consultada pela BBC Mundo após o pedido de desculpas por parte do Vaticano, a Asociación Civil San Juan Bautista (ACSJB) rejeitou ter participado de qualquer tipo de transferência ilícita desses terrenos.
"As aquisições de terras na região de Catacaos foram realizadas em 2012 mediante compras de proprietários que figuravam como titulares legítimos nos Registros Públicos, conforme o marco jurídico vigente no Peru".
"Essas operações foram realizadas dentro do circuito legal, com rastreabilidade registral, e fazem parte de um processo de transferências prévias entre particulares", afirmou o porta-voz e advogado da empresa, Percy García Cavero.
"A ACSJB rejeita categoricamente as acusações de tomada de terras. Em torno deste caso vem sendo construída uma narrativa que busca atribuir responsabilidades à ACSJB sem respaldo jurídico nem verificação dos fatos".
"Essa narrativa foi impulsionada publicamente pelo senhor Jordi Bertomeu, apesar de a ACSJB ter respondido de forma expressa, documentada e sucessiva a essas imputações em nossos comunicados desde 2024", acrescentou a empresa.
O ponto de inflexão
A transferência dos terrenos em 1998 não teve impacto tangível nas comunidades.
Mas isso mudou em dezembro de 2011.
Nesse mês, os camponeses contam que se surpreenderam ao ver vários grupos de desconhecidos instalando cercas em terrenos que consideravam seus.
Carlos Rodríguez, que assessorou juridicamente a comunidade de Catacaos a partir da Coordenação de Direitos Humanos, afirmou que diante disso, os locais "se agruparam e derrubaram a cerca".
Mas os forasteiros voltaram a levantá-la novamente. "E quando os grupos perceberam isso e os enfrentaram, a resposta que receberam foram tiros", diz Rodríguez.
É nesse incidente que foi reportada a morte de Guadalupe Zapata Sosa.
Sua esposa foi uma das presentes na missa em 23 de maio, em Catacaos. Ela compareceu com seus dois filhos.
Zapata foi reconhecido pelo Vaticano como um dos "líderes indígenas falecidos após se opor ativamente ao tráfico de terras vinculado a empresas do Sodalício", conforme consta no comunicado divulgado após a homilia em seu site oficial de imprensa.
Ainda não há sentenças judiciais definitivas que comprovem isso.

Crédito, Cortesia da comunidade de Catacaos
'Não deixem que roubem suas terras'
O recente pedido de desculpas de joelhos deu continuidade à mensagem que o papa Francisco transmitiu em abril de 2024 à comunidade de Catacaos.
"Eu sei o que aconteceu com vocês. Defendam a terra, não deixem que a roubem", disse o pontífice na ocasião.
Um ano antes, a comunidade havia denunciado ao monsenhor Bertomeu que empresas ligadas ao Sodalício os estavam perseguindo.
A decisão de dissolver em 2025 o Sodalício de Vida Cristã foi fundamentada pelo Vaticano, entre outras razões, no suposto abuso na administração de bens eclesiásticos, abuso de autoridade e encobrimento de crimes.
Bertomeu afirma que, após dois anos de investigações, "no Vaticano surgiu a suspeita, a partir da análise da documentação econômica que o próprio Sodalício nos enviou, de que esse grupo teria operado por trás de uma estrutura jurídica de fachada, tomando decisões econômicas por meio de intermediários ou testas de ferro".
A jornalista Paula Ugaz explica que, segundo suas investigações, o Sodalício implantou um mecanismo sofisticado para enriquecer no Peru.
"Eles são como um grande holding que tem empresas lucrativas como imobiliárias, construtoras e agroexportadoras e, ao mesmo tempo, empresas sem fins lucrativos, como universidades, colégios e cemitérios. Mas entre elas fazem negócios entre si", diz a repórter.
E acrescenta que o movimento religioso se aproveitou do concordato que o isentava de pagar impostos para ampliar seus ganhos em operações triangulares. Isso também foi negado pelas empresas ligadas ao Sodalício.

Crédito, Cortesia da comunidade de Catacaos
A dimensão judicial
De acordo com a Coordenação de Direitos Humanos, em 2022 todos os processos contra os camponseses de Catacaos por tentarem recuperar as terras foram arquivados.
Mas em maio de 2026 as comunidades sofreram um revés judicial.
A Justiça peruana rejeitou uma ação de amparo constitucional, um mecanismo judicial destinado a proteger direitos fundamentais quando eles são violados.
A ação buscava, entre outras medidas, a restituição dos quase 10 mil hectares que teriam sido tomados.
Em sua decisão, o 5º Juizado Civil de Piura declarou a ação improcedente logo em sua análise inicial. A decisão foi apelada, mas a 2ª Câmara Civil de Piura confirmou a sentença.
Segundo a defesa dos camponeses, a Justiça justificou sua decisão afirmando que o caso está relacionado a um "suposto ato ilícito de camponeses em conluio com uma empresa privada", tratando-se assim de uma controvérsia de "relevância legal e não constitucional".
Mas Carlos Rodríguez afirma que a via civil não é uma alternativa, pois os crimes nesse âmbito estariam prescritos.
"O que se alega na ação de amparo constitucional é que esta é uma comunidade indígena e, como tal, tem proteção constitucional e também do Convênio 169 da OIT [Organização Internacional do Trabalho], que garante que os povos indígenas sejam consultados para a transferência de seus territórios", acrescenta.
Recentemente, a Comunidade San Juan Bautista de Catacaos foi incorporada à Base de Dados de Povos Indígenas do Ministério da Cultura do Peru.

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Agora, dizem os componeses, resta-lhes apenas recorrer ao Tribunal Constitucional do país, instância na qual também não depositam muitas esperanças.
Para Ugaz — que também foi processada pela cúpula do Sodalício após publicar junto com o jornalista Pedro Salinas o livro em que revelaram os abusos de poder e sexuais cometidos por seus membros, Mitad monjes, mitad soldados (Metade monges, metade soldados, em tradução literal) —, a Justiça peruana falhou com as vítimas neste caso.
"O poder comercial, econômico e político do Sodalício está mais vivo do que nunca, apesar de terem sido suprimidos pela Igreja Católica", diz.
Bertomeu concordou que a Justiça peruana deve fazer mais.
"Detectamos um país com uma grave crise institucional, e isso faz com que a denúncia de Catacaos, assim como a de outros povos originários, possa ter indícios de realidade. A vulnerabilidade das comunidades originárias diante da avidez de alguns empresários deveria ser mais considerada pelas autoridades políticas e judiciais do Peru", afirmou.
A BBC Mundo entrou em contato tanto com o Ministério Público do Peru quanto com o Poder Judiciário para pedir uma versão sobre as acusações das comunidades neste caso. Até a publicação deste artigo, ainda não houve resposta.
Caso não obtenham um veredito favorável nas instâncias ainda pendentes, as famílias afirmam que avaliam recorrer a organismos internacionais.
Mas, por enquanto, ficam com o pedido de desculpas do Vaticano e esperam uma eventual visita do papa Leão 14 ao Peru no final deste ano.

Crédito, EPA/Shutterstock
O Vaticano lhes prometeu um caminho de reparação não apenas simbólica, mas também econômica.
Bertomeu explicou que ainda está pendente a liquidação dos ativos econômicos que o Sodalício possuía, com os quais a Santa Sé busca compensar as vítimas que apresentaram suas reivindicações.
"Com os bens do Sodalício, é preciso reparar suas vítimas, porque foram eles que causaram os danos", afirmou.





























