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Como Fernanda Bolsonaro ganhou destaque na campanha de Flávio para tentar atrair voto feminino

Crédito, REUTERS/Pilar Olivares
"Eu reeduquei ele", diz Fernanda Bolsonaro, esposa do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL),em um dos muitos vídeos da campanha.
Discreta na vida pública até então, a cirurgiã-dentista de 45 anos ganhou protagonismo na corrida do marido ao Planalto, ocupando um espaço estratégico no projeto eleitoral, com foco em pautas ligadas à saúde, à família e à defesa das mulheres.
Em postagens nas redes sociais e nas propagandas exibidas pela televisão, Fernanda aparece com frequência elogiando o marido, o retratando como uma figura paciente, calma e cuja maior qualidade é "conseguir conversar com todos".
Em um dos vídeos veiculados ela afirma que "reeducou" Flávio e chega a dizer que ele é o "Bolsonaro moderado" da família.
Os esforços fazem parte de uma tentativa de aproximar o senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) do eleitorado feminino, que historicamente tende a rejeitar o bolsonarismo, dizem especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
"Em que pese toda a favorabilidade que Flávio tem [nas pesquisas], é indiscutível que ele tem problema com as mulheres", diz Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa que já atuou como coordenadora de comunicação e estratégia de campanhas eleitorais.
"Em uma tentativa de se lançar como um Bolsonaro mais suave ou moderado e se contrapor às declarações do pai sobre as mulheres, Flávio vem tentando deixar a campanha menos masculina, apresentando a esposa e as filhas."

Crédito, REUTERS/Ricardo Moraes
Em outubro de 2018, pouco antes do primeiro turno das eleições que o elegeram, Jair Bolsonaro tinha 50% de rejeição entre as mulheres, contra 39% entre o público masculino, segundo o Datafolha.
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Em 2022, a rejeição feminina permaneceu elevada, mas oscilou durante a campanha, chegando a 55% no final de agosto daquele ano.
Atualmente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece à frente de Flávio Bolsonaro entre as mulheres, embora Flávio esteja numericamente à frente no total do eleitorado.
Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21/10) sugere que Lula tem 42% das intenções de voto entre o eleitorado feminino, contra 34% do senador.
Quando se trata de rejeição, em sondagem do Datafolha divulgada em 15 de outubro de 2026, 48% das mulheres entrevistadas disseram rejeitar Flávio Bolsonaro, contra 40% que desaprovam o atual presidente.
Segundo Jairo Pimentel, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), a decisão de trazer Fernanda Bolsonaro para os holofotes é justamente uma tentativa de dialogar com esse eleitorado feminino que historicamente não se vê representado pelo bolsonarismo.
"Trata-se de um papel simbólico", diz o cientista político. "Na impossibilidade de ter uma vice-mulher, por questões políticas, o papel da Fernanda é justamente de ocupar esse vazio feminino na campanha, tentar dialogar com as mulheres e moderar a imagem do bolsonarismo entre esse eleitorado."
Pimentel aponta ainda que Fernanda parece estar sendo usada para ocupar o lugar deixado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que ficou encarregada de atrair eleitoras para o lado do marido.
"A tentativa é justamente de emular uma Michelle para a campanha do Flávio", diz.
Para Malu Gatto, professora da University College London (UCL), as falas de Fernanda que focam na "reeducação" de Flávio também foram pensadas estrategicamente.
"Ele está ativamente tentando se apresentar como um candidato mais palatável para as mulheres. No primeiro discurso após a vitória no primeiro turno, ele mencionou explicitamente o tema da violência contra as mulheres, tentando justamente sinalizar para esse eleitorado", avalia.
'Quando as mulheres vencem, a família inteira vence'
Até a campanha presidencial, Fernanda Bolsonaro mantinha uma atuação discreta, distante dos holofotes da política.
Mas sua presença em eventos sociais, nas propagandas políticas e redes sociais do marido foi crescendo ao longo da campanha.
Na convenção que oficializou a candidatura do senador à Presidência, ela teve papel de destaque ao apresentá-lo ao público.
"Eu não quero mais assistir a essas notícias de mulheres sendo violentadas, sendo assassinadas todos os dias no nosso país. Isso precisa acabar. Ninguém aguenta mais. Ninguém aguenta mais 4 anos de PT", disse, em discurso curto, antes de chamar o marido ao palco.
O direito das mulheres é um tema recorrente nas falas da esposa de Flávio. "Com Flávio Bolsonaro, as mulheres vão ter mais oportunidades, vão ter mais segurança. E quando as mulheres vencem, a família inteira vence", disse em um comício em Copacabana.
Fernanda é evangélica e ela e o marido foram batizados em 2024 na Comunidade das Nações, igreja sediada em Brasília. Suas declarações públicas também são marcadas por referências ao cristianismo.

Crédito, Reprodução/Instagram
Mais recentemente, Fernanda, que é cirurgiã-dentista especializada em ortodontia facial, também tem sido usada pela campanha para falar de temas relacionados à saúde.
Em um video, ela desmente as informações que circulam nas redes socias de que Flávio teria intenção de acabar com o Farmácia Popular, uma iniciativa que disponibiliza medicamentos essenciais e itens de saúde de graça ou com descontos para a população .
"Como profissional da saúde e mãe, sei que cuidar da saúde é cuidar da família inteira. Por isso, não acredite em mentiras! Flávio defende a manutenção e ampliação do programa: acesso a medicamento não pode ser privilégio, tem que ser direito", diz na postagem.
Em outras postagens, ela fala diretamente aos eleitores de mais de 70 anos, pedindo que compareçam às urnas e esclarecendo a proposta do senador em relação a reajustes na aposentadoria.
'Mais emocionado do que eu'
Mas um foco constante das aparições públicas de Fernanda é apresentação do senador como marido e pai.
Em parte das propagandas eleitorais, Flávio é retratado em casa, cozinhando ou falando do dia a dia de cuidado das filhas, e sempre ao lado de Fernanda.
"[Flávio] não é de chorar no dia a dia, mas nos momentos especiais sempre se emociona, mais do que eu até", diz Fernanda em um vídeo especial de Dia dos Pais dedicado ao senador. "Quando as meninas nasceram ele chorou muito, entrou aos prantos".
De histórias sobre o início do relacionamento, quando ele se declarou rapidamente para ela, a elogios à sensibilidade e paciência do marido, as declarações são uma tentativa de afastar o senador da imagem masculina e estereotipada que herdou do pai, diz Cila Schulman, do Ideia.
Episódios antigos do ex-presidente Jair Bolsonaro, como quando classificou sua filha caçula e única mulher como uma "fraquejada", também são dificilmente esquecidos e prejudicam a imagem do senador, diz Schulman.
"Não há nenhuma declaração misógina conhecida de Flávio, nem agora nem anteriormente", afirma. "Mas há uma associação muito grande à imagem do pai dele e ao bolsonarismo em si, que é visto como um clã masculino".
Ainda segundo a ex-coordenadora de estratégia de campanhas eleitorais, a apresentação de Fernanda como dentista e uma mulher que trabalha é uma tentativa de modernizar o tom e a visão sobre esposas de políticos.
"Mas não acredito que ela tenha outro papel na campanha além do de mulher e mãe das filhas deles", diz.
Uma 'nova Michelle'?
O papel adotado por Fernanda torna frequente a comparação com a ex-primeira-dama e agora senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF).
Evangélica e com forte presença nas redes sociais, a mulher de Jair Bolsonaro assumiu protagonismo em agendas ligadas à religião, assistência social e pessoas com deficiência, durante o mandato do ex-presidente e em sua campanha pela reeleição em 2022.
Após deixar o Palácio do Planalto, Michelle Bolsonaro permaneceu como uma das principais lideranças do PL, assumindo papel central na estratégia de aproximação do partido com o eleitorado feminino.
A ex-primeira-dama declarou apoio à eleição do enteado em 2026, mas um atrito público com Flávio a afastou da campanha.
Em um vídeo publicado em junho deste ano, Michelle disse que o senador a "maltratou" e tratou seu apoio como algo "insignificante" durante um desentendimento em torno de articulações políticas para as eleições no Ceará em 2025.
Em resposta aos vídeos, Flávio divulgou um texto em suas redes sociais se desculpando e afirmando que em nenhum momento ofendeu ou teve a intenção de ofender a ex-primeira-dama.
Com o pedido de desculpas e uma atuação de outros membros da cúpula do PL, os dois se reconciliaram e gravaram vídeos juntos, apoiando a candidatura de Flávio.
Mas segundo especialistas, o respaldo de Michelle foi discreto e as consequências do desentendimento público permaneceram.

Crédito, ANDRE COELHO/EPA-EFE/REX/Shutterstock
E Fernanda ainda não tem a força política de Michelle, especialmente quando se trata de seu apelo entre o público evangélico, dizem os analistas.
O cientista político Jairo Pimentel afirma, porém, que a mulher de Flávio parece estar sendo usada para ocupar o lugar deixado por Michelle com o público feminino.
Segundo o professor da FESPSP, como o senador não obteve um apoio consistente da madrasta, o papel de dialogar com a base feminina parece estar sendo transferido para Fernanda.
"Ela vem para ocupar esse espaço que a Michelle não ocupou e que ela ocupou bem quanto esposa do Jair, sobretudo na tentativa da reeleição, quando sua imagem já era mais consolidada e sua atuação política já era mais forte", diz.
O pesquisador afirma, no entanto, que ambas têm um papel limitado quando o assunto é converter novos eleitores. "Essas mulheres têm um papel maior de reforço na ala bolsonarista feminina do que propriamente de mudar o jogo. Nesse sentido, as duas tem um papel simbólico também", diz.
Para a socióloga e cientista política Mayra Goulart, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mesmo figuras como Michelle Bolsonaro, Damares Alves e Bia Kicis, que tiverem grande aceitação entre o eleitorado brasileiro representando o PL, podem esbarrar nas dificuldades impostas pelo bolsonarismo para a representação feminina.
"A agenda substantiva, que pensa as mulheres como um subgrupo oprimido e que precisa de políticas públicas para superar essa relação de opressão é objeto de uma profunda reação da extrema direita global, que vê nessa agenda feminista uma ameaça aos valores da família tradicional", diz a coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) da UFRJ.
"Há sempre um limite para a atuação simbólica e operacional das figuras femininas da extrema direita, porque elas não podem defender uma agenda substantiva de mulheres, vão sempre esbarrar num obstáculo que é a própria ideologia que as une e que as conforma junto com essa força política."
Segundo Goulart, a própria forma como Fernanda Bolsonaro é inserida na campanha de Flávio reforça a ideia defendida pelo partido acerca da família tradicional e atinge um eleitorado que já é mais propenso a votar no bolsonarismo.
"Atrai pessoas que se identificam com essa ideia de família tradicional, na qual a mulher ocupa um papel de menor centralidade, principalmente no tocante à esfera pública", diz sobre a estratégia de campanha.
Cila Schulman concorda que, até o momento, a presença de Fernanda nas propagandas e eventos eleitorais parece estar produzindo poucos resultados para a campanha de Flávio entre as mulheres.
"Isso não basta para as mulheres", diz. "A imagem masculina da campanha não está superada pelas mulheres, quando Flávio fala sobre segurança pública, por exemplo, ele acaba resvalando justamente em uma linguagem muito masculina e pesada e acaba se revelando."
"O papel simbólico de Fernanda não parece estar trazendo dividendos eleitorais", diz ainda Jairo Pimental, da FESPSP.
Segundo o especialista, até mesmo candidatos a vice-presidente têm demonstrado pouco poder em atrair votos diretos para as chapas, o que torna o papel das primeiras-damas ainda mais simbólico.
Discurso 'nem em amigo oculto no Natal'
Fernanda é casada com Flávio desde 2010. O casal tem duas filhas, Luiza e Carolina. Ambos se conheceram e moraram até 2019 no Rio de Janeiro, mas se mudaram para Brasília quando ele assumiu o mandato de senador.
"Foi uma paixão avassaladora. Com três dias, ela já estava dizendo para mim que me amava. Com 10 meses a gente já estava noivo. Dois anos juntos estávamos casados", contou Flávio em um podcast recentemente.
Com a mudança para a capital federal, a cirurgiã-dentista montou um consultório no Lago Sul.
Segundo a equipe de campanha do marido, sua carreira incluiu ainda uma passagem pela Aeronáutica. Em 2009, Fernanda ingressou na Força como cirurgiã-dentista e atuou como tenente durante oito anos.
A primeira postagem em sua página pública no Instagram é do Natal de 2025. O próprio Flávio reconhece em suas falas sobre a mulher o quanto seu papel diante do eleitorado cresceu.
"Fernanda sempre teve timidez em falar em público e agora está falando para muita gente", disse recentemente. "Nem em amigo oculto de festa de Natal ela gostava de fazer discurso."























