Como culto liderado por pastor negro que falava a 'língua dos anjos' deu origem ao movimento evangélico há 120 anos

 A sede da Missão de Fé Apostólica, em foto de 1907, de autor desconhecido

Crédito, Domínio público

    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 11 min

Chamado de Reavivamento da Rua Azusa, uma série de cultos evangélicos realizada há 120 anos em um templo abandonado da Igreja Metodista Africana em Los Angeles, na Califórnia, foi o catalisador do movimento pentecostal, vertente carismática e fundamentalista que se espalhou por diversos segmentos do cristianismo ao longo do século 20.

À frente do grupo estava um religioso afro-americano, filho de ex-escravizados: o pastor William Joseph Seymour (1870-1922). Entre os participantes — pouco mais de 50 pessoas, conforme relatos da imprensa da época —, a maioria era formada por imigrantes pobres e negros, em um tempo de intensa segregação racial nos Estados Unidos.

"O movimento da rua Azusa é considerado, por alguns pesquisadores, um marco não somente para o meio evangélico, mas uma renovação do cristianismo moderno, tanto por sua abrangência quanto impacto", diz o cientista da religião Kenner Terra, pastor da Igreja Batista de Água Branca, autor do livro Coragem para Ser e membro da Rede Latino-Americana de Estudos Pentecostais. "É tratado como o marco inicial do pentecostalismo moderno."

"O pentecostalismo é um movimento inescapável hoje. É o movimento cristão majoritário no Brasil dentro da vertente protestante", diz o teólogo Yago Martins, pastor batista e autor do livro Arruinados pelo Amor de Deus, entre outros.

"E o fenômeno que aconteceu em Azusa é certamente o marco inicial do pentecostalismo evangélico. Mesmo que antes houvesse algumas expressões de caráter aparentemente carismático, nunca havia sido no mesmo grau de intensidade e de centralidade."

"Havia outros focos de avivamento acontecendo no mesmo período. Mas foi Azusa que explodiu. E a razão é histórica e teológica", diz o teólogo Mac Anderson, pastor fundador da Family Church em Goiânia e autor do livro O Deus que Habita em Mim.

"O que aconteceu ali foi diferente de tudo o que o protestantismo havia visto. Não havia ordem de culto, não havia pregador fixo, não havia hierarquia visível. O Espírito Santo conduzia e qualquer pessoa, negra, branca, mulher, imigrante, analfabeta, podia se levantar e falar."

Falar em línguas

Na raiz do movimento está a crença divina em um fenômeno chamado de glossolalia — conhecido no meio religioso como "dom de línguas". Trata-se de uma manifestação de linguagem em que o indivíduo, tomado por fervor religioso, começa a emitir vocalizações e sons em uma língua completamente desconhecida. Quem crê costuma atribuir isso à presença de Deus, consequência do chamado batismo do Espírito Santo. Por isso, o fenômeno também é chamado de "língua dos anjos".

O pastor Seymour era entusiasta da ideia — embora, pessoalmente, nunca tivesse vivido essa experiência.

Nascido em Centerville, na Louisiana, ele foi criado na fé batista e relatou que tinha visões de cunho religioso desde a infância. Na juventude, viveu em Indiana e Ohio, e alternou-se em empregos menos qualificados — trabalhou em restaurante e foi porteiro de uma companhia ferroviária, por exemplo. Em paralelo, estudava teologia e frequentava denominações protestantes.

Em 1905 ele se mudou para Houston, no Texas. Ali nasceria sua obsessão pela glossolalia. Ele aprendeu sobre o fenômeno porque começou a frequentar a escola bíblica criada pelo pregador Charles Fox Parham (1873-1929), um personagem envolto em controvérsias, mas cuja teologia é vista como a principal fundamentação para o pentecostalismo.

Charles Parham, em foto de 1910, de autor desconhecido

Crédito, Domínio público

Legenda da foto, Charles Parham, em foto de 1910, de autor desconhecido
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Como era negro, Seymour não foi autorizado a assistir às aulas de dentro da sala — ouvia as lições do corredor.

No cerne da doutrina estava o entendimento de que o tal dom das línguas era a prova da efetivação do batismo com o Espírito Santo.

É uma ideia fundamentalista que vem da Bíblia. De forma geral, o cristianismo entende Deus como uma entidade única em essência — afinal, é uma religião monoteísta — mas que se manifesta em três pessoas distintas e inseparáveis: o pai, criador; o filho, Jesus Cristo; e o Espírito Santo.

Segundo os textos do evangelho, João Batista dizia que batizava com água, marcando assim a conversão, mas um dia viria alguém, o Messias, que batizaria "com o fogo do Espírito Santo".

Na Bíblia este episódio é narrado como posterior à morte de Jesus. No dia de Pentecostes, é narrado que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos que estavam reunidos. E uma das consequências foi que eles teriam adquirido a capacidade de falar em novas línguas.

William Seymour, em foto dos anos 1910, de autor desconhecido

Crédito, Domínio público

Legenda da foto, William Seymour, em foto dos anos 1910, de autor desconhecido

Movimento de Santidade

Para o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, cada qual a seu modo, Parham e Seymour representam os marcos fundantes do pentecostalismo contemporâneo. "São duas maneiras de enxergar o movimento", afirma.

"A figura de Seymour é muito interessante e por isso se coloca sobre ele o momento axial do pentecostalismo", diz Moraes. "A gente está falando de um sujeito negro, filho de ex-escravizados e que tem uma experiência religiosa que faz dele símbolo de uma religiosidade baseada na experiência, na emoção, na abertura ao sobrenatural."

A essa altura Seymour tinha 35 anos e já atuava como pastor em uma pequena igreja do chamado Movimento de Santidade, uma linha cristã que já pregava a necessidade de um batismo espiritual para que o crente tivesse uma vida santa em plenitude e fosse "regenerado" pela fé — e, assim, obtivesse a garantia de salvação eterna.

De acordo com o historiador e teólogo Vinicius Couto, presbítero da Igreja do Nazareno e professor na Faculdade Evangélica de São Paulo, esse Movimento de Santidade é que precisa ser entendido como o pontapé inicial do pentecostalismo contemporâneo. "Para eles, a ideia de receber o Espírito Santo vinha na noção de uma santificação", contextualiza. "E isso seria evidenciado pelo falar em línguas."

"Seymour aprendeu essa doutrina com o que o Parham ensinava", lembra Couto.

De Houston para Los Angeles

Uma mulher afro-americana que vivia em Los Angeles, na Califórnia, viajou para Houston para visitar parentes. Em sua cidade, ela frequentava uma igreja do mesmo movimento — uma dissidência californiana criada depois de que um grupo de oito famílias afro-americanas foi expulso da comunidade batista a que pertenciam.

Essa protestante teria ficado encantada com a pregação de Seymour, sobretudo pela sua ênfase às manifestações do Espírito Santo e à glossolalia. Alguns meses depois, por conta dela, o Movimento de Santidade de Los Angeles fez um convite para que o pastor fosse até lá realizar cultos e pregações.

Ele chegou lá em 22 de fevereiro de 1906. Logo em seus primeiros sermões, já deixou claro que o falar em línguas era a comprovação da presença do Espírito Santo. A veemência com a qual ele defendia esse ponto acabou incomodando parte da comunidade. No domingo seguinte, quando voltou ao templo, Seymour encontrou a porta fechada com cadeado.

Mas Seymour já havia conquistado alguns seguidores e um pequeno grupo deles parecia disposto a formar uma dissidência do movimento cristão. A partir de então eles passaram a se reunir diariamente, na casa de um desses crentes. Nas orações, o que mais pediam era pelo chamado batismo no Espírito Santo.

Segundo os relatos da época, no dia 9 de abril houve a primeira manifestação da glossolalia no grupo — que rezava fervorosamente há cinco semanas e se auto-infligia rigorosos jejuns. No dia seguinte, outros seis integrantes do grupo experimentaram o mesmo fenômeno. Seymour falaria em línguas apenas no dia 12 de abril.

A notícia rapidamente se espalhou pela vizinhança, com contornos de milagre. A varanda da casa onde eles se reuniam passou a juntar pequenas aglomerações de curiosos, sobretudo afro-americanos e latinos. Gradualmente, episódios de glossolalia se tornavam recorrentes também entre essa pequena, mas barulhenta, assembleia.

"Eles gritaram por três dias e três noites", escreveu o historiador norte-americano Harold Vinson Synan (1934-2020), no livro The Century of the Holy Spirit (O Século do Espírito Santo, em tradução livre). "Pessoas vinham de todos os lugares. No dia seguinte, não era mais possível chegar perto da casa."

De acordo com ele, "a cidade inteira se comoveu" e a gritaria era tamanha que até a estrutura da casa foi afetada.

Seymour e seus companheiros entenderam que era preciso um espaço mais adequado. Encontraram um velho barracão no número 312 da rua Azusa, dentro do então gueto da população negra em Los Angeles. Como o local havia sido um templo da Igreja Metodista Episcopal Africana, já tinha condições de receber o grupo para as orações e os cultos. Media mais de 400 metros quadrados.

Era uma construção precária. Depois de ter funcionado como igreja, havia sido armazém, depósito, pequena hospedaria, loja de lápides e até curral de gado.

Eles alugaram o imóvel e, depois de um mutirão de limpeza — havia sobras de madeira e outros materiais acumulados em todos os cantos — realizaram o primeiro encontro no dia 14 de abril de 1906. Este é o marco do episódio histórico que acabou conhecido como Reavivamento da Rua Azusa.

Orações fervorosas

 A casa de Los Angeles onde ocorreram as primeiras manifestações registradas de glossolalia, em foto de 1907, de autor desconhecido

Crédito, Domínio público

Legenda da foto, A casa de Los Angeles onde ocorreram as primeiras manifestações registradas de glossolalia, em foto de 1907, de autor desconhecido

A nova igreja foi denominada Missão de Fé Apostólica.

As fontes não são unânimes, mas informações apontam que até o início de maio, de 300 a 1,5 mil pessoas passaram pelo local e participaram das fervorosas orações cheias de manifestações de glossolalia. Os cultos aconteciam praticamente de hora e hora e atraíam gente de diversas denominações cristãs, como batistas e presbiterianos.

Chamava a atenção o fato de que ali estavam, juntos, brancos e negros, latinos e outros imigrantes, mulheres e crianças. "O pentecostalismo iniciado no século 20 e fruto da religiosidade daqueles que estavam excluídos: os mais pobres, os analfabetos, os deserdados", diz Moraes.

"Pessoas de vários lugares dos Estados Unidos e de outros países foram testemunhar e se juntar ao que estava acontecendo em Los Angeles. Alguns voltaram para suas regiões e igrejas anunciando a mensagem 'pentecostal'", comenta Terra.

O cientista da religião enumera alguns fatores que ajudaram na disseminação do pentecostalismo experimentado ali: a defesa do falar em línguas, os relatos de ações sobrenaturais, e "um senso de urgência diante do final dos tempos".

Essas ideias se espalharam no meio evangélico. Novas comunidades cristãs foram formadas. Igrejas tradicionais também acabaram influenciadas.

"Além disso, entre algumas igrejas tradicionais que não se tornaram oficialmente carismáticas ou mesmo não romperam com suas instituições, as expressões fervorosas do culto e linguagem pentecostais geraram mudanças litúrgicas e práticas dos fieis", pontua ele.

Houve muitas críticas. Jornais chamavam o grupo de "seita barulhenta" e de "estranha doutrina" praticando "fanáticos ritos", com "teorias loucas". Vizinhos passam a reclamar do volume alto das orações.

Ciente da repercussão do que fazia o seu ex-aluno, o religioso Parham também criticou. "Horrível, uma vergonha terrível", disse ele, segundo consta no livro The Charismatic Century: The Enduring Impact of the Azusa Street Revival (O Século Carismático: o Impacto Duradouro do Reavivamento da Rua Azusa, em tradução livre), escrito pelo pastor Jack William Hayford (1934-2023). Parham teria definido o fenômeno como "uma louca imitação do Pentecostes".

"Parham chamou as reuniões de 'truques' e ficou consternado com a mistura racial", diz Anderson. "Pregou que Deus estava desgostoso com aquele estado de coisas e passou o resto da vida denunciando Azusa como falsa."

Inclusão racial e voz para todos

"A forma de culto e o discurso sobre o Espírito Santo, defendidos e vividos no movimento liderado por Seymour, ao mesmo tempo em que atraíam, também foram vistos com muita desconfiança e preconceito, não só pela pouca ordem litúrgica e expressões interpretadas como esdrúxulas pelos demais protestantes, mas, especialmente, por romper barreiras de classe, étnicas e raciais", assinala Terra, frisando o fato de que, contrariando o status da época, na comunidade de Seymour, um pastor afro-americano, conviviam brancos, negros e latinos.

Se por um lado o grupo de Seymour incentivava a participação de todos, por outro, havia críticas quanto a um despreparo teológico. Couto diz que havia uma postura de que não era preciso estudar com afinco as escrituras antes da pregação, porque o Espírito Santo iria inspirar os oradores, por exemplo.

Ao mesmo tempo, histórias de supostos milagres, com doentes sendo curados, aumentam a fama do local. O efeito de Azusa foi contagioso. "As pessoas que chegavam lá, de toda parte, atraídas pelas notícias, saíam transformadas e iam pregar o que haviam vivido", conta Anderson.

"A notícia se espalhou bastante e logo a participação nos cultos se tornou internacional", afirma Couto.

Com a ajuda de colaboradores, Seymour editou um periódico para divulgar sua teologia. Era o jornalzinho The Apostolic Faith, distribuído gratuitamente. Inicialmente, a tiragem era de 5 mil exemplares — no auge, chegou a ser de 40 mil.

A Missão de Fé Apostólica seguiu em evidência por quase 10 anos. Em 1915 o interesse popular já era pequeno e a igreja se tornou apenas mais uma pequena comunidade cristã de Los Angeles. Seymour seguiu à frente até sua morte, de ataque cardíaco em setembro de 1922. A congregação ainda funcionaria por mais nove anos, quando o prédio foi perdido por dívidas. A antiga igreja acabaria demolida, dando lugar a um centro cultural e comunitário.

"Seymour morreu em relativa obscuridade, sem reconhecimento, sem herança institucional", lamenta Anderson. "Mas o fogo não apagou. O legado de Azusa ainda está vivo."

Especialistas reconhecem que o protagonismo negro no movimento explica, ao menos em parte, os gestos, movimentos e sons que estão na base do pentecostalismo. "Inegavelmente, a espiritualidade afro-americana, perpassada por oralidade, fervor e musicalidade, com raízes nas populações africanas escravizadas, modelou o pentecostalismo e desenvolveu suas formas de culto", diz Terra.

"Outro ponto importante a se destacar é a corporeidade afro-americana como ponto importante da maneira como o início do movimento pentecostal desenvolveu suas experiências, o que sempre esteve presente entre os pentecostais."

"As feições religiosas afro-americanas, incluindo o canto congregacional, a oração fervorosa e a liberdade de expressão emocional no culto na rua Azusa tiveram forte influência das igrejas negras americanas", comenta ele.

"Muitas das expressões físicas das experiências exageradamente extemporâneas de recebimento de Espírito acabam sendo visualmente semelhantes ao que encontramos [nas religiosidades de matriz africana]", analisa Martins.

Naquele período de segregação racial, havia nos Estados Unidos diversas igrejas protestantes frequentadas apenas por negros. Nelas, em fenômeno parecido com o sincretismo ocorrido em determinados grupos do Brasil, danças, cantos e rituais originados em religiões de matriz africana foram ressignificados sob uma perspectiva cristã. O fenômeno Azusa, com participação maciça de gente oriunda dessas igrejas, bebeu nessa fonte.

"Sem sombra de dúvidas há influência africana. Ainda que os praticantes digam que não, quem olha de fora como pesquisadora sabe que o pentecostalismo deve sua religiosidade também a uma longa tradição das religiosidades africanas. Muitas coisas são incorporadas. Há um sincretismo, um caldo de culturas que ajuda a formar o pentecostalismo que conhecemos", comenta Moraes.

E o pentecostalismo acabou sendo acolhedor para as minorias. "A presença maciça dos afrodescendentes tem a ver com a liberdade teológica encontrada no movimento pentecostal", analisa Couto. "O pentecostalismo é uma proposta teológica bastante popular e de massa." Por conta disso, ele acredita que os grupos minoritários acabam atraídos porque ali "começam a ter a sensação de ter voz". "É uma teologia inclusiva", acrescenta.

Legado

Se é inegável que o avivamento da Azusa está na base do pentecostalismo contemporâneo, é difícil dizer quais denominações atualmente bebem nessa fonte. Segundo o teólogo Anderson, o movimento de Los Angeles já era conhecido em 50 países diferentes ainda naquela primeira década do século 20. E hoje 500 milhões de cristãos no mundo todo são "herdeiros espirituais" de Azusa.

"O movimento carismático que floresceu décadas depois, já dentro de igrejas históricas, tem raízes diretas em Azusa", argumenta ele.

"No Brasil, o rastro é direto. A Assembleia de Deus, hoje a maior denominação evangélica do país, tem suas raízes ligadas a missionários escandinavos que passaram por Azusa ou foram influenciados pelo movimento. O que aconteceu num galpão de estábulo em Los Angeles chegou ao Belém do Pará em 1911 e não parou mais", conta Anderson.