Como PF recuperou prints apagados de Vorcaro e identificou contato atribuído a ministro Alexandre de Moraes

Crédito, Getty Images
- Author, Luiz Fernando Toledo
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
- Published
- Tempo de leitura: 4 min
Documentos da Polícia Federal (PF) tornados públicos nesta terça-feira (1/9) mostram como os investigadores recuperaram mensagens apagadas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e reconstruíram diálogos a partir de capturas de tela enviadas pelo WhatsApp.
Parte dessas conversas teriam acontecido entre Vorcaro e um aparelho de celular atribuído ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
O conteúdo foi revelado inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo e integra investigação relatada pelo ministro André Mendonça no STF.
Mendonça retirou o sigilo de documentos da apuração e pediu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre as mensagens.
A investigação apura suspeitas relacionadas à Operação Compliance Zero, que apura fraudes envolvendo a cessão de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). As fraudes teriam sido lideradas por Vorcaro.
O celular de Vorcaro foi apreendido durante o cumprimento de medidas judiciais.
Segundo a PF, Vorcaro escrevia mensagens em aplicativo de notas do celular. Em seguida, fazia uma captura de tela (screenshot ou print) do texto e enviava a imagem pelo WhatsApp, muitas vezes como mensagem de visualização única.
Dessa forma, o conteúdo não aparecia necessariamente como uma mensagem de texto convencional e poderia desaparecer depois de aberto.
A perícia encontrou no aparelho arquivos correspondentes às capturas de tela. O relatório afirma que cada screenshot, mesmo excluído, produzia um arquivo temporário em formato PDF, que podia ser comparado com outros dados extraídos do celular.

Crédito, Reprodução

Crédito, Reprodução
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Esses PDFs estavam em uma pasta interna do sistema identificada como "tmp", abreviação de temporary, ou "temporário". Trata-se de uma área interna usada pelo próprio iPhone para guardar automaticamente arquivos provisórios, sem intenção do usuário.
Parte do conteúdo havia sido apagada poucos minutos depois de sua criação, mas acabou sendo recuperada durante a extração forense.
"Após elaborar o texto das notas ora tratadas e realizar um screenshot do conteúdo, DANIEL VORCARO efetua, poucos segundos depois e como primeira interação no Whatsapp após screenshot, a remessa de mensagem ao terminal (que seria supostamente de Moraes)", explica o documento da PF.
Os investigadores cruzaram diferentes horários: o momento em que a nota foi criada ou alterada, a hora em que a captura de tela foi produzida, o instante do envio pelo WhatsApp e a conversa à qual o arquivo estava associado.
A PF também comparou o conteúdo das notas com arquivos encontrados no histórico do aplicativo.
Em nota divulgada nesta terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirmou que, diante da abrangência do pedido de contratação de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou o ministro Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais para a celebração do contrato.
Segundo o escritório, a consulta foi realizada porque Moraes é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo, de acordo com a nota, era verificar a existência de possíveis restrições, como ações sob relatoria do ministro no Supremo Tribunal Federal (STF) ou participação em julgamentos de interesse do potencial cliente.
O escritório sustenta que não foi identificada previsão de atuação no STF nem qualquer impedimento legal para a contratação. A nota afirma ainda que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", diz a nota.
Qual o teor das mensagens divulgadas?
Em uma das notas, Vorcaro relatou ter recebido informações confidenciais de pessoas ligadas ao Banco Central (BC) sobre uma suposta pressão para que a instituição adotasse medidas contra ele e o banco.
O texto menciona "G", provável referência a Gabriel Galípolo, então presidente do Banco Central, além de "Andrei" e "Paulo". O relatório interpreta os dois últimos nomes como referências prováveis a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
Vorcaro escreveu que seria importante "reforçar com Andrei e Paulo" para que ninguém "de baixo" fizesse uma "sacanagem" contra ele.
Naquele momento, o Master enfrentava sérias dificuldades financeiras e Vorcaro estaria tentando vender o banco para investidores.
O contato atribuído a Moraes

Crédito, Reuters
A análise identificou uma conversa entre Vorcaro e um contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA".
O mesmo número aparecia na agenda com outros nomes, como "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF".
Os documentos não mostram, por si só, quem usava o aparelho receptor nem permitem visualizar as respostas enviadas pelo outro lado.
Segundo a PF, o contato foi compartilhado com Vorcaro por Fábio Faria — ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro e político próximo ao banqueiro — em dezembro de 2023.
Pouco depois, o número foi salvo no aparelho de Vorcaro.
A partir da comparação entre os horários das notas, dos screenshots e dos envios, os investigadores da PF concluíram que parte das imagens teria sido encaminhada a esse contato.
Em setembro de 2025, o contato passou a utilizar mensagens temporárias, configuradas para desaparecer depois de 24 horas. O relatório considera esse dado compatível com o método de comunicação por capturas de tela e mensagens de visualização única.
























