As histórias de imigração e sucesso das famílias de Lamine Yamal e Nico Williams, duas das jovens estrelas da seleção da Espanha campeã do mundo

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- Author, Darío Brooks*
- Role, BBC News Mundo
- Author, Margarita Rodríguez
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Quando Nico Williams recebeu a medalha de campeão do mundo pela Espanha, no último domingo (19/7), o atacante fez questão de homenagear a mãe, María. Após a cerimônia de premiação, ele caminhou até a arquibancada e entregou a ela o símbolo da conquista.
A cena carregava algo muito além do futebol. Décadas antes de ver o filho levantar o troféu mais cobiçado do esporte, María havia atravessado o deserto do Saara a pé ao lado do marido, Félix Williams, em uma jornada de Gana rumo à Europa em busca de uma vida melhor.
Nico nasceu e cresceu na Espanha, mas carrega a história dos pais como parte de sua identidade. Aos 24 anos, o atacante se tornou um dos rostos de uma geração que representa a transformação de um país marcado pela imigração.
Ao lado dele está Lamine Yamal, de 19 anos, outro dos grandes talentos da seleção espanhola e também filho de imigrantes. Amigos fora dos campos e tratados quase como irmãos, os dois passaram a simbolizar uma "nova Espanha"— dentro e fora dos gramados.
"São dois jovens espanhóis com uma história familiar marcada pelo esforço e pela dificuldade. São exemplos de humildade e talento", afirmou o professor Moisés Ruiz, especialista em Liderança e Comunicação da Universidade Europeia, em entrevista à BBC Mundo após o título espanhol na Eurocopa em 2024.
Mas qual é a história das famílias de Nico Williams e Yamal e como eles se tornaram duas das maiores estrelas do futebol mundial?

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Em busca de uma vida melhor
Nico e seu irmão mais velho, Iñaki Williams — também jogador de futebol do Atlético de Bilbao — nasceram e cresceram na Espanha.
A história da família é marcada por esperança, sofrimento, muito trabalho, determinação e solidariedade.
Em 1994, Maria, mãe dos jogadores, estava grávida de Iñaki quando deixou Gana ao lado do marido, Félix, em busca de uma vida melhor na Espanha.
Eles fizeram a maior parte da viagem a pé, incluindo a travessia do deserto do Saara, uma das etapas mais difíceis da jornada.
Anos depois, o próprio Nico contou a um veículo espanhol que sua mãe fez parte do trajeto descalça.

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Fim do Promoção Agregador de pesquisas
O casal chegou a Melilla, enclave espanhol localizado no norte da África. Para aumentar as chances de obter asilo político, recebeu a orientação de declarar que fugia de um país em guerra.
Foi assim que afirmaram ser da Libéria, nação que, na época, era devastada por um conflito armado.
"Durante muitos anos, acreditei que eles eram da Libéria. Naquele período, eu fazia parte de um grupo da Cáritas que atendia imigrantes", contou à BBC Mundo Iñaki Mardones Aja.
Na época sacerdote e hoje responsável pelo serviço de assistência religiosa católica do Hospital Marqués de Valdecilla, em Santander, Mardones explicou que o governo espanhol distribuiu parte dos imigrantes que estavam em Melilla por diferentes regiões do país.
"Os pais de Nico chegaram a Bilbao por meio da Cáritas. Como eu falava inglês, pediram que eu integrasse o grupo e fui buscá-los na estação de trem. No relatório constava que eles tinham nível 5 de castelhano, então comecei a falar em castelhano, mas eles fizeram uma expressão de estranheza. Passei a falar em inglês e eles ficaram tranquilos", relembrou.
'Uma honra'

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Mardones relatou que, nos primeiros dias, eles ficaram hospedados em uma pensão, mas depois foram para um apartamento.
Em uma de suas visitas, Maria, que ainda estava grávida, disse que sentia alguns incômodos.
Mardones não pensou duas vezes: "Eu disse: 'Vamos ao hospital!'. E assim nós fizemos. Após os médicos a examinarem, disseram que ela já estava com dilatação."
Enquanto aguardavam no hospital, Mardones acompanhou Félix até a cafeteria. Pouco depois, receberam a notícia de que o bebê havia nascido. O menino recebeu o nome de Iñaki, em homenagem a ele.
"Quando perguntam se podem dar o seu nome a uma criança que está para nascer, é um presente enorme, uma grande honra. E ver esse garoto chegar onde chegou é algo impressionante", afirmou.
Ele também recorda que, para diferenciá-los, Maria chamava um de "Iñaki pequeno" e o outro de "Iñaki grande".
"Anos depois, quando os reencontrei, brinquei que agora era o contrário: o 'Iñaki grande' era o jogador", contou.
Os pais conseguiram trabalho em uma fazenda e, quando chegou a hora de matricular Iñaki na escola, a família se mudou para a cidade de Pamplona.

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Em Pamplona nasceu o filho mais novo do casal em 2002: Nicholas Williams Arthuer, com oito anos de diferença de seu irmão.
"Meu pais arriscaram a vida para que nós, meu irmão e eu, tivéssemos um futuro melhor. E eles conseguiram. Sempre serei grato ao que meu pai e minha mãe fizeram por nós: são lutadores, nos ensinaram o valor do respeito e do trabalho duro, mostrando que ninguém conquista nada de graça", declarou Nico em uma entrevista.
"A verdade é que tenho muito orgulho de tê-los como pais, e tento fazer o possível para que eles sintam orgulho de me ter como filho."
Uma irmandade à prova de tudo

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Sem boas oportunidades de trabalho para sustentar a família, Félix Williams se mudou para Londres — onde ele inicialmente tinha planejado imigrar — com objetivo de trabalhar e mandar dinheiro pra casa.
Na capital britânica, ele limpou mesas na área de alimentação de um shopping no bairro de Chelsea e trabalhou como segurança, inclusive nas entradas do estádio do Chelsea.
Félix ficou longe da família por 10 anos — antes de retornar a Bilbao — e, durante esse período, Iñaki acabou assumindo um papel quase paternal na vida de Nico, enquanto sua mãe chegou a ter até três empregos ao mesmo tempo para sustentar a família.
O irmão mais velho buscava Nico no colégio e lhe dava algo para comer depois das aulas. Também lhe ensinava a como se comportar caso quisesse ter sucesso como atleta de elite.
"É uma referência pra mim. Ele é tudo pra mim", disse Nico sobre Iñaki.
"Ele ajudou meus pais e a mim a termos comida, a podermos ir para a escola e a termos roupas para vestir."
"Ele me corrige, me aconselha, sempre fez isso, na verdade. Mas nós nos damos muito bem. Ele é meu irmão, mas também exerce um pouco o papel de pai", afirmou.

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Os dois se tornaram jogadores de futebol. Em 28 de abril de 2021, eles entraram em campo como reservas na partida entre Atlético de Bilbao e Real Valladolid, que terminou empatada em 2 a 2, tornando-se os primeiros irmãos a jogarem juntos pelo clube desde 1986.
Diferentemente de Nico, Iñaki não defende a seleção espanhola. Ele decidiu representar Gana como uma homenagem às suas raízes no país da África Ocidental.
"Em uma ocasião, acompanhei os dois para levar Iñaki a um jogo do Atlético de Bilbao, antes de ele estrear pelo time principal", contou Mardones.
"Nico vivia o futebol com muita paixão, mas, além disso, era muito simpático, um garoto especial. Além de serem grandes estrelas, são grandes pessoas. Eles sabem de onde vieram."
Nico também relembrou a trajetória da família em uma entrevista a um veículo espanhol:
"Minha mãe sofreu muito. Caminhar pelo deserto descalça, passar por tantas coisas que eu não desejaria a ninguém. No fim das contas, ninguém vem para cá para tirar nada de ninguém. As pessoas vêm para ter um pedaço de pão, um teto, um futuro melhor para seus filhos e para si mesmas (...). Ninguém nasce racista; é preciso educar bem as crianças."
Yamal, o menino prodígio

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Os pais de Lamine Yamal também emigraram da África, mas a primeira a chegar à Espanha foi sua avó paterna, Fátima.
Segundo contou ao podcast da Fundação José Ramón de la Morena, há alguns meses, Yamal revelou que a avó chegou "sozinha, de ônibus", vinda do Marrocos, após uma viagem que passou por Algeciras e Granada.
"Ela trabalhou de manhã, à tarde e à noite para que meu pai pudesse vir, porque ele ficou no Marrocos sozinho com a irmã", explicou o jogador.
Mounir Nasraoui, pai de Lamine, nasceu no Marrocos e chegou à Espanha quando tinha apenas 3 anos.
A mãe de Yamal, Sheila Ebana, é da Guiné Equatorial. Os dois se estabeleceram nos arredores de Barcelona, onde construíram a família.
"Quando meu filho nasceu, eu sabia que ele seria uma estrela", disse Nasraoui com orgulho aos jornalistas antes da final da Eurocopa de 2024.
Segundo o pai do jogador relatou à imprensa espanhola, ele não pôde assistir presencialmente à final da Copa do Mundo, na vitória da Espanha sobre a Argentina, porque sofre de epilepsia.
A família se mudou para o bairro operário de Rocafonda, uma região com grande presença de imigrantes, algo que se tornou motivo de orgulho para Yamal e e seus pais.
"Este bairro é o melhor do mundo e o melhor da Espanha, porque todos somos iguais e todos nos queremos", afirmou o pai do jogador.
Foi lá que começou a trajetória de Lamine Yamal no futebol.
Ainda criança, o jovem talento começou a jogar em uma quadra de concreto do bairro, onde deu os primeiros passos rumo à carreira profissional.
"Ele é um caso especial. Sempre ia ao poliesportivo jogar, com todo mundo: com crianças de 7 anos ou com jovens de 15, 17 e 18 anos. E sim, amadureceu antes dos outros. Tenho orgulho de tudo o que ele conquistou e de tudo o que trouxe para nós", afirmou seu pai, Mounir.
Futuro brilhante

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Ao perceberem seu talento, Lamine foi levado para fazer testes no Barcelona e acabou aprovado para ingressar em La Masia, o centro de formação do clube catalão onde Lionel Messi também foi revelado. Lá, teve acesso a alojamento, alimentação, educação e treinamento esportivo.
"Eu me lembro dele como uma criança que tinha plena consciência do próprio talento. No esporte, pessoas talentosas costumam ser muito egoístas, mas Yamal não era assim", contou Iván Carrasco, um dos treinadores de Lamine nas categorias de base, ao colunista da BBC Sport Guillem Balagué.
"Eu via uma criança generosa, que não buscava reconhecimento. Como treinador, às vezes pensava: 'O que posso ensinar a ele, se ele faz coisas que nem eu consigo imaginar do banco de reservas?'", relatou Balagué em sua coluna sobre o jogador.
"Quanto mais perto você chega de Lamine, mais percebe que o rótulo de 'decisivo' ainda é pouco para descrevê-lo. Ele é um jogador muito, muito especial."
Os recordes começaram a cair um após o outro. Lamine se tornou o jogador mais jovem a entrar em campo pelo Barcelona, aos 15 anos e 290 dias.
Aos 16 anos e 57 dias, tornou-se o jogador mais jovem a atuar e marcar pela seleção espanhola.
E, com o título da Copa do Mundo, passou a ser o jogador mais jovem da história a conquistar tanto a Eurocopa quanto o Mundial, aos 19 anos e 6 dias.

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E, além da fama, Lamine nunca esquece suas origens. Em suas comemorações, costuma homenagear Rocafonda, seu bairro de infância, fazendo com os dedos o número 304, referência ao código postal do local.
Lamine demonstra orgulho de suas raízes.
"A virtude dele não está apenas no pé esquerdo. Cada gol é um suspiro de liberdade, de convivência e de amor à sorte. Socialmente, ele representa o valor do compromisso; é uma declaração contra o racismo e a xenofobia", afirmou o professor Moisés Ruiz.
Para Joan Vehils, diretor do jornal esportivo catalão Sport, a história de Lamine também ultrapassa os limites do futebol.
"Há pessoas que continuam criticando a imigração e criticando que sejam oferecidas oportunidades a essas pessoas", disse Vehils à BBC Mundo.
"Eu acredito que muita gente vai perceber que, quando os países ajudam uns aos outros, o resultado pode ser este: transformar um jovem espanhol, mas de origem não espanhola, em alguém plenamente integrado."
E completou:
"Nesse caso, muitos precisam ficar em silêncio, porque o fruto do trabalho dele trouxe alegria para todos os espanhóis."
Como irmãos

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Nesta geração da seleção espanhola, Nico encontrou em Lamine uma nova alma gêmea. Com o jovem atacante, ele passou a exercer um papel de irmão mais velho, assim como Iñaki fez com ele durante a infância.
"É uma grande imagem da Espanha ter dois jovens jogadores que riem, que são felizes e que transmitem valores. Hoje em dia, isso é quase tão importante quanto jogar bem", afirmou Joan Vehils.
Tudo o que os dois fazem acabou se tornando um fenômeno. Nas redes sociais, suas coreografias viralizaram, especialmente nas comemorações de gols pela seleção espanhola.
A amizade entre eles começou em 2024, quando Lamine recebeu sua primeira convocação para a seleção principal. Antes dos amistosos da Espanha contra Colômbia e Brasil, o técnico Luis de la Fuente pediu a Nico que cuidasse do jovem de apenas 16 anos.
Nico aceitou a missão. Foi uma escolha estratégica de De la Fuente, que percebeu que dificilmente haveria um mentor melhor para Yamal naquele momento.
"Ele é um bom exemplo para ele", disse um representante da Federação Espanhola de Futebol.
"Lamine copia tudo o que Nico faz. Nico se levanta, se prepara e vai atrás de Lamine. Bate na porta do quarto do jogador do Barça e insiste: 'Vamos, não podemos chegar atrasados'."
Para muitos, a relação dos dois lembra a forma como Nico se relaciona com seu irmão Iñaki. Mas, para ele, existe algo ainda maior.
"Já disse a ele [Yamal] que precisa aprender com o 'pai dele', que sou eu", brincou Nico.
Para Mardones, as histórias de Nico e Lamine são exemplos para muitas pessoas que precisaram deixar seus países e reconstruir suas vidas.
"Tanto a história de Nico quanto a de Yamal são referências para muitas pessoas que tiveram de buscar uma nova vida e conseguiram seguir em frente. Para muitos, eles são referências esportivas e humanas."
O professor Moisés Ruiz também compartilha dessa visão:
"Só resta agradecer às suas famílias por terem escolhido o meu país e agradecer à Espanha por ter dado a possibilidade de transformar suas vidas."
*Com reportagem de Carlos Serrano e Rafael Abuchaibe. A maior parte das entrevistas foi realizada em 2024, após a conquista da Espanha na Eurocopa.
























