O que as séries de TV não mostram de quem vive de OnlyFans

    • Author, Hanna Flint
    • Role, BBC Future
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  • Tempo de leitura: 9 min

Profissionais do sexo há muito tempo servem de inspiração para séries de TV. Mas, com a ascensão das redes sociais, surgiu uma nova versão desse universo no século 21: criadores de conteúdo adulto em plataformas como a OnlyFans.

Agora, uma série de produções começa a explorar os altos e baixos dessa escolha profissional, baseada na criação e publicação de conteúdo pornográfico para assinantes.

A série da HBO Industry mostrou, em sua terceira temporada, a jovem financista Sweetpea Golightly, interpretada por Miriam Petche, fazendo uma renda extra em uma plataforma como o OnlyFans.

Já a aguardada nova temporada de Euphoria introduziu uma trama envolvendo a plataforma por meio da personagem Cassie, vivida por Sydney Sweeney, que cria uma conta para ajudar a pagar seu casamento luxuoso.

A plataforma também ocupa papel central em Margô Está em Apuros, nova comédia da Apple TV+ baseada no romance homônimo lançado em 2024 por Rufi Thorpe.

A produção oferece o que a diretora Kate Herron descreve como uma abordagem "útil" sobre o OnlyFans, acompanhando a história de uma jovem — interpretada por Elle Fanning — que abandona a faculdade e decide entrar na plataforma porque enfrenta dificuldades financeiras e precisa sustentar o filho.

"Parte do público já conhece a plataforma, mas outra parte não", disse Herron à BBC.

"Eles vão assistir e ver alguém que decide 'Vou criar conteúdo para o site', mas também entender os motivos dessa decisão".

Essas séries tentam lidar com as complexidades dessa profissão, convidando o público a compreender o que leva essas personagens femininas a fazer esse tipo de escolha.

"Há tanta coisa acontecendo em relação ao que significa ser mulher e às diferentes formas de viver isso", afirma Herron. "As pessoas não são simples."

Euphoria, por outro lado, recebeu críticas pelo que parte do público descreveu como uma representação degradante dos esforços sexualmente provocativos de Cassie.

Margô Está em Apuros adota uma abordagem mais empática em relação à trajetória da protagonista no OnlyFans, buscando desafiar percepções sobre a realidade de quem trabalha na plataforma.

"Isso sempre esteve no fundo da minha cabeça", diz Herron. "Queria retratar com respeito e integridade todas as pessoas que usam o site."

Fundado em 2016, o OnlyFans é um serviço de vídeos por assinatura criado originalmente para conectar músicos e influenciadores ao público. Em 2017, porém, a plataforma retirou a proibição de conteúdo pornográfico.

Embora ainda reúna criadores de diferentes áreas — de personal trainers a chefs de cozinha — foram os produtores de conteúdo adulto, em tempo integral ou parcial, que impulsionaram seu crescimento.

Entre março e abril de 2020, o OnlyFans registrou um aumento de 75% no número de novos criadores cadastrados, à medida que mais pessoas recorriam à plataforma para tentar ganhar dinheiro em meio à pandemia.

O crescimento acelerado da plataforma, porém, também veio acompanhado de controvérsias.

No ano passado, a empresa controladora do OnlyFans foi multada em pouco mais de £1 milhão (R$ 5 milhões) pelo órgão regulador britânico Ofcom por fornecer informações incorretas sobre seus mecanismos de verificação de faixa etária.

Em 2021, a BBC News mostrou que a plataforma falhava em impedir que menores de idade vendessem ou aparecessem em vídeos explícitos. Em entrevista à BBC em 2022, a empresa afirmou ter adotado medidas rígidas após as reportagens e declarou ter transformado o serviço "na rede social mais segura do mundo".

Por que tantas pessoas estão entrando nesse mercado

Como mostram as diferentes tramas dessas séries, os motivos que levam alguém a criar uma conta no OnlyFans variam bastante.

Em Margô Está em Apuros, a personagem de Elle Fanning recorre à plataforma depois que o pai de seu bebê — um professor universitário — se recusa a participar da criação da criança, e ela perde o emprego como garçonete.

Sem conseguir um trabalho formal, ela cria uma conta usando o pseudônimo "The Hungry Ghost" (Fantasma Faminto, em português). O dinheiro começa a entrar à medida que ela fornece avaliações dos pênis de seus fãs masculinos e vídeos criativos de nudez filmados por sua colega de apartamento Susie — interpretada por Thaddea Graham.

"Margô adora escrever, e para nós era muito importante abraçar o lado divertido e criativo disso ao longo da série, especialmente na maneira como ela encara o OnlyFans", explica Herron, reconhecendo, ao mesmo tempo, que a personagem entra na plataforma por desespero financeiro.

"Está difícil encontrar trabalho atualmente, e isso também era realista para alguém que é mãe. Então surge a pergunta: 'de onde vou tirar dinheiro para sustentar meu filho?'."

A história de Margô, uma mãe solo tentando sustentar a criança, se aproxima da experiência real da britânica Rebecca Goodwin. Única responsável por duas filhas, ela criou sua conta em 2019, depois de passar por empregos temporários no varejo, no setor de serviços e também na área de cuidados pessoais.

"Era difícil encontrar algo compatível com os horários da escola", contou à BBC. "Essa é a beleza do OnlyFans: o dinheiro é ótimo, mas o que ele mais me deu foi liberdade para acompanhar a rotina escolar das minhas filhas."

Essa sensação de autonomia é apontada como uma das razões pelas quais muitas mulheres decidiram entrar na plataforma. Elas podem produzir conteúdo de casa ou em estúdios, manter distância digital dos fãs e ficar com o valor arrecadado — descontada a taxa de 20% cobrada pelo OnlyFans.

"As pessoas que conheço que criaram contas no OnlyFans se sentiram atraídas justamente por essa flexibilidade, além do potencial de ganhos", afirma Angela Smith, pesquisadora da plataforma e professora de Linguagem e Cultura na University of Sunderland.

"As personagens de Euphoria e Margô fazem isso porque encaixa na vida delas."

Ainda assim, enquanto a história de Margô reflete as dificuldades financeiras enfrentadas por mães trabalhadoras de baixa renda, a trajetória de Cassie em Euphoria aparece muito mais ligada à busca por fama e dinheiro.

A terceira temporada da série se passa cinco anos depois, com Cassie agora noiva de Nate, personagem de Jacob Elordi. Sozinha na mansão do casal na Califórnia, ela pede à empregada da casa que filme conteúdos provocativos para aumentar sua popularidade no TikTok.

Cassie quer gastar US$ 50 mil em arranjos florais para o casamento, mas Nate, em dificuldades financeiras, não quer arcar com a conta. Ela então faz um ultimato: "Deixe-me contribuir criando uma conta no OnlyFans", ela implora, ou vamos terminar o noivado.

A realidade de uma carreira no OnlyFans

Goodwin argumenta que, embora tenha alcançado sucesso financeiro na plataforma, a realidade da maioria dos criadores está longe de ser tão lucrativa quanto muitos imaginam.

"As pessoas acham que isso é um esquema para enriquecer rápido, mas quase ninguém fala sobre a renda média", explica.

Segundo dados divulgados em 2024, a renda gira em torno de US$ 108 (R$ 550p) or mês.

"Então é preciso pensar em quantas pessoas fazem isso apenas para complementar a renda do emprego principal ou porque estão desesperadas financeiramente. Esse grupo é muito maior do que o das pessoas que ficaram milionárias."

Também existe o preconceito social enfrentado por muitos criadores de conteúdo adulto.

Goodwin afirma que sua família aceitou bem sua mudança de carreira e que, na cidade do norte da Inglaterra onde vive, frequentemente é parada por mulheres pedindo fotos.

"As mães são todas simpáticas", diz. "Mas será que teriam a mesma visão sobre mim se eu não tivesse um Porsche e uma casa?"

Alguns profissionais, porém, enfrentam zombaria e hostilidade, algo retratado nessas séries. Em Industry, fotos de Sweetpea circulam entre colegas homens do banco onde ela trabalha, e a personagem vira alvo de piadas.

Goodwin usa o próprio nome porque não queria viver com medo de ter sua identidade revelada, mas alguns criadores que adotam pseudônimos já passaram exatamente por isso — situação que também aparece em Margô Está em Apuros.

Na série, imagens perturbadoras de Cassie vestida como um "bebê adulto" são ridicularizadas por uma amiga e se tornam motivo de conflito com Nate.

A abordagem gerou forte reação negativa nas redes sociais. Um usuário escreveu: "Isso não é desenvolvimento de personagem, é conteúdo fetichista. Repugnante", referindo-se ao figurino infantilizado da personagem — algo que, segundo a matéria, seria proibido pelas regras de segurança do próprio OnlyFans.

A modelo do OnlyFans, Sophie Rain, disse à revista Complex que achava que as roupas que Cassie usa no roteiro, incluindo uma fantasia de cachorro, eram "prejudiciais" para a comunidade.

O lado sombrio da indústria

Há ainda relatos de exploração envolvendo mulheres que atuaram no OnlyFans. A plataforma afirma que essas denúncias "não refletem as amplas medidas de segurança" adotadas pelo serviço.

No documentário recente Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera, da Netflix, o influenciador Harrison Sullivan revela que gerencia criadoras de conteúdo do OnlyFans, embora descreva mulheres que produzem conteúdo adulto online como "nojentas".

Ainda assim, como aponta o documentarista Louis Theroux, ele continua lucrando com esse conteúdo.

"Quando você entra na parte de gerenciamento dentro do universo do OnlyFans, começa a se perguntar se isso não vira exploração e manipulação", afirma Goodwin, que trabalhou brevemente com uma empresa de gerenciamento "por desespero" no início da carreira, mas desistiu ao perceber que os 20% cobrados sobre seus ganhos eram injustos.

"Depois disso, eles passaram a explorar outras pessoas antes de fecharem de vez. Alguns empresários simplesmente não têm respeito nenhum por essas mulheres."

Angela Smith também chama atenção para a forma como a indústria do tráfico sexual expandiu sua atuação da pornografia tradicional para algumas plataformas digitais.

"Especialmente mulheres jovens do Leste Europeu são traficadas para o Reino Unido ou forçadas a produzir esse tipo de conteúdo em seus próprios países", afirma. "Isso é um problema enorme e nada empoderador."

O OnlyFans disse à BBC que adota "tolerância zero para atividades ilegais" na plataforma e utiliza "medidas robustas de proteção", incluindo processos rigorosos de cadastro e moderação de 100% do conteúdo publicado.

A empresa afirmou ainda que seus termos de serviço deixam claro que ela não mantém vínculo, facilita ou endossa terceiros ou agências. Segundo a plataforma, todas as medidas "razoáveis e apropriadas" são tomadas para impedir práticas ligadas à escravidão moderna e ao tráfico humano.

Até agora, ao menos por enquanto, nenhuma série realmente mergulhou nesse lado mais sombrio da indústria do sexo online.

Ainda assim, embora Margô Está em Apuros tenha um tom relativamente leve e cômico, a produção reflete experiências reais. Para garantir autenticidade, Rufi Thorpe apresentou à equipe de roteiristas criadoras de conteúdo do OnlyFans que ela entrevistou durante a pesquisa para o livro.

Já Sam Levinson, criador de Euphoria, defendeu sua abordagem extravagante do tema. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, ele afirmou que queria trazer "uma camada de absurdo" à cena em que Cassie aparece fantasiada de cachorro, "para que o público não mergulhasse completamente na fantasia ou ilusão da personagem".

"Queríamos capturar o que ela está tentando mostrar ao público e estar dentro disso, mas também nos afastar e ver o quão deprimente é."

Por outro lado, Goodwin espera que retratos mais complexos do OnlyFans ajudem a normalizar seu trabalho, embora ela própria tenha sentimentos contraditórios sobre a sexualização das mulheres.

"Os homens já nos sexualizam de qualquer forma e, por mais que eu odeie a ideia de que o OnlyFans incentive isso, não acho que seja possível acabar totalmente com esse comportamento."

Ao lado de histórias de sucesso financeiro no OnlyFans, sempre haverá relatos traumáticos e experiências não contadas de pessoas das mais diferentes origens. Talvez, ao abordar esse universo, a TV e o cinema consigam trazer luz a essas histórias.