Terceira Guerra Mundial? Por que a ideia de que o mundo já enfrenta um conflito global ganha força

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- Author, João Caminoto
- Role, De Paris para a BBC News Brasil
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- Tempo de leitura: 6 min
Um navio iraniano afundado no Mar Cáspio por drones ucranianos.
Trinta mil soldados norte-coreanos a caminho da linha de frente russa.
Drones Shahed, fabricados no Irã, caindo sobre Kiev havia meses — agora sendo abatidos por especialistas ucranianos enviados ao Golfo Pérsico para ajudar a proteger aliados americanos de outros drones Shahed, disparados por outro país.
Há dois anos, cada um desses fatos seria tratado como episódio isolado, próprio de uma guerra regional específica. Hoje, cada vez mais gente enxerga neles a mesma coisa: pedaços de um único conflito, que se espalha.
A sensação de que o mundo já vive — ou está a poucos passos de viver — uma guerra mundial deixou de ser provocação acadêmica e virou tema corrente entre analistas de segurança internacional, colunistas e formuladores de política externa.
Não é consenso, e ninguém está dizendo que o mundo caminha para uma repetição das duas guerras do século 20.
Mas a percepção de que os conflitos da Ucrânia e do Irã pararam de correr em paralelo e passaram a se tocar diretamente veio ganhando corpo nas últimas semanas — e os encontros do presidente americano, Donald Trump, nesta terça-feira (28/7), em Washington, com o ucraniano Volodymir Zelensky e com o israelense Benjamin Netanyahu, ajudaram a reavivar essa sensação, ao reunir na mesma sala, no mesmo dia, os líderes dos dois lados de guerras que já deixaram de correr em paralelo: de um lado, Rússia e Irã, que trocam armas e inteligência entre si; do outro, Ucrânia, que agora troca tiros diretamente com o Irã.

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A tese de Paul Poast
"Os EUA continuam equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia — fazem tudo menos puxar o gatilho. E a Rússia está fazendo o mesmo pelo Irã: fornecendo armas, informações de alvejamento e assistência de planejamento."
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A frase é do professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Chicago, Paul Poast, em entrevista à BBC News Brasil em maio — um dos primeiros a dar nome e substância a essa sensação.
Para ele, dois elementos bastam para justificar o conceito de guerra mundial: duas grandes guerras simultâneas em continentes diferentes, a da Ucrânia e a do Irã, e o envolvimento direto de grandes potências em ambas, cada uma apoiando o adversário da outra no conflito oposto.
Poast reconhece que a escala dos conflitos atuais está longe da devastação das duas guerras do século 20, mas recorre a um paralelo histórico menos óbvio: a Guerra dos Sete Anos, no século 18, que também reuniu múltiplas potências em múltiplos teatros sem alcançar aquele patamar de destruição.
"Essa é uma analogia muito melhor para pensar o conceito de guerra mundial", disse. Já em maio, via na China o fator mais imprevisível da equação — o risco de Pequim interpretar o desgaste americano na Ucrânia e no Irã como uma janela de oportunidade sobre Taiwan. "Esse seria o grande ponto de inflexão", afirmou.
Nesta terça-feira, Poast atualizou sua avaliação à BBC News Brasil: "Os acontecimentos recentes e as informações mais atuais reforçam como aquilo que talvez parecesse, em maio, uma afirmação provocativa — a de que vivemos uma guerra mundial — hoje é visto como plausível, talvez até amplamente aceito. Os dois conflitos estão atraindo mais países, e nenhum dos dois parece perto do fim."
O professor repetiu, ainda, a ressalva que fizera antes: "Isso não significa que os conflitos vão atingir o nível de violência da Primeira ou da Segunda Guerra Mundial, mas isso não é necessário para que um conflito se integre a uma guerra mundial."

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O aviso de Gideon Rachman
O comentarista-chefe de política externa do Financial Times, Gideon Rachman, tratou do mesmo fenômeno em artigo publicado na segunda-feira (27/7).
"Não há dúvida de que tanto a China quanto os EUA estão se preparando ativamente para uma guerra um contra o outro", afirma.
Para Rachman, os conflitos da Europa, do Oriente Médio e da Ásia — "ainda largamente distintos" — "começam a se sobrepor".
Ele lembra que as duas guerras mundiais do século passado envolveram alianças identificáveis e conflito direto entre as maiores potências do planeta, e nota que o conjunto atual de conflitos já cumpre parte desses critérios: guerras sobrepostas em dois continentes, com influência sobre conflitos na África, e uma aproximação entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte que estrategistas americanos batizaram de "eixo dos adversários" (ou "eixo da desordem").
Rachman cita o ex-diretor sênior de planejamento estratégico da Casa Branca no governo de Joe Biden, Thomas Wright, para quem "a China ajudou a Rússia a reconstruir sua capacidade militar muito mais rápido do que seria possível de outra forma, fornecendo máquinas-ferramenta, microeletrônica e outras tecnologias cruciais, além de cooperar na produção de drones".
Ele pondera que a postura de Donald Trump em relação a aliados tradicionais dos EUA, somada ao isolamento crescente de Israel na Europa e em parte do Golfo, dificulta identificar um bloco unificado de resposta a esse eixo. Mesmo assim, conclui: "Conflitos regionais e erros de cálculo entre grandes potências podem ser uma combinação letal."
Ferguson: 'Não é uma pergunta absurda'

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Nem todo mundo trata o tema com o mesmo peso. O historiador britânico Niall Ferguson, do Hoover Institution, em Stanford, vem tratando do assunto com mais cautela desde março, quando publicou dois textos a respeito.
No primeiro, escrito nos primeiros dias da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, lembrou que a mesma pergunta já havia surgido quatro anos antes, com a invasão russa da Ucrânia: "Hoje, sete dias depois do início da mais recente guerra contra o Irã, a mesma preocupação ressurgiu. Não é uma pergunta absurda."
Sua conclusão, porém, foi mais reservada que a de Poast: prefere falar em "Guerra Fria 2" a uma Terceira Guerra Mundial propriamente dita.
Duas semanas depois, ao analisar o envio de fuzileiros navais americanos ao Estreito de Ormuz, foi mais longe na descrição do que via: "A guerra com o Irã é ainda mais futurista que a guerra na Ucrânia. Os dois lados usam drones, e muitos ataques de precisão dos EUA e de Israel têm alvos selecionados por inteligência artificial. Isso pode entrar para a história como a primeira guerra de IA".
Para ele, o movimento americano no Golfo Pérsico abre janelas estratégicas para China e Rússia explorarem outros pontos de estrangulamento globais — como o Estreito de Taiwan, do qual depende a cadeia global de semicondutores.
A leitura mais radical de Jeffrey Sachs
No outro extremo do espectro está o economista americano Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia. Em entrevista ao podcast Greater Eurasia, do analista Glenn Diesen — professor de Ciência Política na University of South-Eastern Norway —, Sachs foi taxativo em março: "Provavelmente estamos nos primeiros dias da Terceira Guerra Mundial, e a questão será saber se ela ficará contida."
E ele completou, listando o que via como sintomas do mesmo fenômeno: "A guerra na Ucrânia, claro, continua. A guerra no Oriente Médio hoje se espalha por toda a região. A guerra entre Paquistão e Afeganistão talvez tenha alguma relação com isso. Um navio de guerra iraniano foi afundado na costa da Índia. Por todas essas razões, há combates em todo o mundo. Esses combates estão, ao menos frouxamente, ligados entre si. O que não sabemos é o quão próxima é essa ligação".
Sachs soma sua voz à de Poast e Rachman no diagnóstico de que os conflitos deixaram de ser isolados — mas sua leitura das causas é bem mais controversa, atribuindo o quadro a uma "busca delirante de hegemonia global" por parte dos Estados Unidos.
Um debate ainda em aberto
Nem todos os analistas endossam o rótulo de guerra mundial. Andrea Kendall-Taylor, do CNAS (Center for a New American Security, um dos principais think tanks de segurança nacional de Washington), prefere falar em "eixo da desordem" — cooperação real e crescente entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, mas sem aliança formal, e limitada pela cautela de cada país em evitar confronto direto com os EUA.
Já a ex-conselheira da Casa Branca Fiona Hill, do Brookings Institution, chamou a atenção em junho para outro ângulo: tanto Washington quanto Moscou estão consumindo seus próprios arsenais nas duas guerras, o que fragiliza a confiabilidade de ambas as potências como fiadoras de segurança para seus aliados.
Nenhum dos conflitos dá sinal de que vai terminar em breve. E a cada semana cresce a chance de mais um país ser puxado para dentro deles — pela Coreia do Norte, pela China, por quem mais decidir que tem algo a ganhar.
É um cenário que preocupa mais gente a cada dia que passa.























