Astronautas da Artemis 2 voltam à Terra 'felizes e saudáveis' após missão à Lua

Astronautas sentados ao lado de um helicóptero

Crédito, NASA

Legenda da foto, Os astronautas Christina Koch e Victor Glover foram fotografados sentados no helicóptero após serem retirados do mar
Tempo de leitura: 6 min

A tripulação da missão Artemis 2 está de volta à Terra após uma viagem histórica de nove dias ao redor da Lua, que levou astronautas à maior distância já registrada em um voo tripulado.

A Orion viajava a mais de 38.600 km/h quando atingiu a atmosfera superior da Terra, e seu escudo térmico foi submetido a temperaturas equivalentes à metade da temperatura da superfície do Sol.

Às 21h07 desta sexta-feira (10/4), a cápsula pousou no oceano Pacífico, na costa de San Diego, nos Estados Unidos.

"Que jornada!", exclamou o comandante Reid Wiseman logo após a descida, confirmando que a tripulação estava em boas condições.

O retorno seguro abre caminho para a próxima fase do programa Artemis, que tem como objetivo levar seres humanos à superfície lunar e, eventualmente, construir uma base permanente na Lua.

Wiseman, Jeremy Hansen, Victor Glover e Christina Koch foram retirados da cápsula em segurança cerca de 1h30 após o pouso e já estão a bordo de um navio da Marinha dos Estados Unidos, onde passam por avaliações médicas.

Segundo um oficial médico, os quatro estão "se sentindo muito bem".

A fase de retorno era considerada a mais crítica da missão.

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Durante a reentrada, a cápsula acionou os paraquedas para reduzir a velocidade antes do pouso. Ao todo, a descida até o oceano Pacífico levou cerca de 13 minutos.

O retorno foi classificado pela NASA como "um pouso perfeito".

"Estamos de volta à ativa, enviando astronautas à Lua", afirmou o chefe da agência, Jared Isaacman. "Este é apenas o começo."

Após o pouso, equipes da Marinha dos Estados Unidos iniciaram a recuperação da nave, seguindo um protocolo rigoroso.

Em uma coletiva de imprensa, o diretor de voo Rick Henfling disse que houve muita ansiedade, mas também muita confiança durante o retorno da tripulação da Orion à Terra.

"Todos nós demos um suspiro de alívio assim que a escotilha lateral (da cápsula) se abriu", disse ele.

"A tripulação está feliz e saudável, pronta para voltar para casa, em Houston."

Lori Glaze, administradora adjunta interina da NASA, elogiou muito os astronautas.

Ela disse que os quatro eram impressionantes individualmente, mas que se orgulhava do "trabalho em equipe" e da "camaradagem" deles.

"Acho que eles realmente captaram muito bem o que estávamos tentando alcançar", acrescentou ela.

"Era uma missão para toda a humanidade."

Barcos no mar

Crédito, NASA via Reuters

Legenda da foto, Astronautas foram retirados da cápsula em segurança após pouso no mar

Como a Orion permanece aquecida após a reentrada e pode liberar gases, a operação foi conduzida com cautela, com mergulhadores avaliando as condições ao redor antes da abertura da escotilha.

Os astronautas foram então levados, um a um, de helicóptero até o navio de recuperação. Cada astronauta será examinado por médicos de voo para verificar pulso, pressão arterial, respostas cerebrais e nervosas, e equilíbrio.

Em uma publicação nas redes sociais, o presidente dos EUA, Donald Trump, deu boas-vindas aos tripulantes da missão, e fez um convite que os astronautas visitem a Casa Branca.

"Parabéns à incrível e talentosa tripulação da Artemis II. Toda a viagem foi espetacular, o pouso foi perfeito e, como presidente dos Estados Unidos, não poderia estar mais orgulhoso! Espero vê-los em breve na Casa Branca. Faremos isso de novo e, depois, o próximo passo: Marte!"

A missão ocorre em um momento politicamente sensível para Trump, e o resultado bem-sucedido pode fortalecer sua posição interna, em meio a divisões no país. Além disso, o avanço no programa Artemis reforça a disputa estratégica com a China na exploração lunar, vista como uma nova fronteira de influência, tecnologia e possíveis recursos.

Paraquedas no mar

Crédito, NASA

O que acontece agora

Nos próximos dias, a tripulação seguirá para o principal centro de operações da Nasa em Houston, onde dados fisiológicos e operacionais da missão serão analisados.

Um dos principais objetivos da Artemis 2 é entender melhor como o corpo humano reage à radiação do espaço profundo, além da proteção do campo magnético da Terra — conhecimento considerado essencial pela Nasa para futuras missões tripuladas.

Apesar de a missão ter sido relativamente curta, a permanência no espaço ainda representa um esforço físico significativo.

Na ausência da gravidade, músculos e ossos tendem a perder massa — especialmente aqueles responsáveis pela postura, como os das costas, pescoço e panturrilhas.

Mesmo com rotinas rigorosas de exercícios, não é possível evitar completamente esse desgaste, que pode chegar a até 20% de perda muscular em apenas duas semanas.

Ainda assim, os impactos na saúde dos astronautas da Artemis 2 devem ser limitados.

Missões anteriores, como as do ônibus espacial, duravam de duas a três semanas, enquanto estadias na Estação Espacial Internacional costumam se estender por cinco a seis meses.

Nesse contexto, o tempo passado pela tripulação desta missão está entre os mais curtos já registrados em voos espaciais.

O retorno à Terra

O módulo de tripulação da Artemis 2 se separa do seu módulo de serviço enquanto se prepara para a reentrada na Terra

Crédito, NASA via Reuters

Legenda da foto, Cápsula Orion se separa do seu módulo de serviço e se prepara para a reentrada na Terra

A reentrada na atmosfera e o pouso no mar envolviam riscos elevados, com a cápsula Orion enfrentando temperaturas de até 2.760°C — cerca de metade da temperatura da superfície do Sol.

Esse momento era tratado com cautela pela Nasa, especialmente após a missão Artemis 1, quando danos inesperados no escudo térmico geraram uma investigação que atrasou a missão atual em mais de um ano.

Mas tudo ocorreu conforme o planejado.

A cápsula se separou do módulo de serviço pouco depois das 20h30, colocando os quatro astronautas oficialmente na trajetória de retorno à Terra.

Na sequência, a Orion entrou na atmosfera a cerca de 120 mil metros de altitude e a aproximadamente 38 mil km/h, momento em que perdeu temporariamente o contato com o centro de controle devido ao "blackout" de comunicações.

Durante cerca de seis minutos, os controladores da missão em Houston não tiveram qualquer contato com a tripulação, acompanhando a descida apenas por modelos e cálculos.

O sinal foi recuperado posteriormente e a sequência de pouso pôde prosseguir. O compartimento frontal foi então descartado e os paraquedas de frenagem foram acionados, reduzindo a velocidade da cápsula antes da abertura dos três paraquedas principais, que garantiram a descida final até o oceano Pacífico.

Missão histórica

Os quatro astronautas durante viagem à Lua

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Christina Koch, Jeremy Hansen, Victor Glover e Reid Wiseman passaram 10 dias em uma missão à órbita lunar

A missão Artemis 2 teve início em 1º de abril, quando o foguete foi lançado do Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, na Flórida.

Diferentemente de missões anteriores, a Orion não teve como objetivo pousar na Lua, mas realizar um sobrevoo do lado oculto do satélite — um lado que nunca é visível da Terra.

Embora satélites já tenham registrado o lado oculto anteriormente, esta foi a primeira vez que humanos observaram essas partes da superfície lunar, com vastas crateras e planícies de lava.

No dia 6 de abril, a espaçonave atingiu 406.771 km da Terra durante a passagem próxima à Lua, superando os 400 mil km alcançados pela missão Apollo 13 em 1970.

A missão Artemis 2 da Nasa passou por todos os testes importantes desde o seu lançamento, no dia 1° de abril. O desempenho do foguete, da espaçonave e da tripulação foi melhor que os engenheiros imaginavam.

A viagem também serviu como um teste decisivo do sistema Orion com humanos a bordo — algo impossível de validar apenas por simulações.