Como age a pílula que dá esperança contra um dos cânceres mais letais que existem

Células de câncer de pâncreas

Crédito, Steve Gschmeissner/Science Photo Library via Getty Images

Legenda da foto, Não existem exames eficazes de detecção do câncer de pâncreas e a doença raramente provoca sintomas perceptíveis
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Por muito tempo, as chances de sobreviver ao câncer de pâncreas têm sido extremamente baixas.

Entre os pacientes diagnosticados com câncer pancreático metastático entre 2015 e 2021, cerca de 97% morreram em até cinco anos após o diagnóstico.

O câncer de pâncreas é tão letal, em parte, porque não existem exames eficazes de detecção e porque a doença raramente provoca sintomas perceptíveis em seus estágios iniciais. Quando um paciente apresenta sinais, como icterícia (amarelamento da pele) ou dor abdominal, o câncer muitas vezes já se espalhou para outros órgãos.

Como oncologista gastrointestinal e pesquisador especializado em ensaios clínicos de fases iniciais, vejo de perto a necessidade urgente de tratamentos mais eficazes para pacientes com câncer de pâncreas. Por décadas, acreditava-se ser impossível atingir com sucesso o principal mecanismo responsável pela maioria dos casos dos cânceres de pâncreas.

Mas essa visão está mudando rapidamente graças a um novo medicamento capaz de inibir a principal proteína que impulsiona o câncer de pâncreas, quase dobrando a taxa de sobrevida de pacientes com formas avançadas da doença.

Tumores 'intratáveis'

Historicamente, o tratamento padrão para câncer pancreático avançado dependeu da quimioterapia, com medicamentos potentes desenvolvidos para destruir células que se dividem rapidamente. Embora a quimioterapia possa retardar a progressão da doença, sua eficácia costuma ser limitada pela capacidade das células cancerígenas do pâncreas de desenvolver resistência a esses medicamentos.

A força do câncer de pâncreas está em sua genética. Mais de 90% dos tumores pancreáticos são impulsionados por mutações em um gene chamado KRAS. Esse gene codifica proteínas que funcionam como interruptores, ativando e desativando o crescimento celular.

Quando o KRAS sofre mutação, o interruptor fica permanentemente "ligado", fazendo com que as células cancerígenas se multipliquem sem controle.

Por décadas, cientistas consideraram o KRAS "impossível de atingir com medicamentos". A superfície da proteína é extremamente lisa e não possui as cavidades moleculares que os remédios tradicionais precisam para se conectar e desligar esse mecanismo.

Como os tratamentos existentes não conseguiam agir sobre essa proteína, o combate ao câncer de pâncreas se apoiou principalmente em drogas tóxicas, mais parecidas com instrumentos de impacto amplo do que com terapias precisas.

A quimioterapia tenta controlar a doença destruindo células em larga escala, o que também provoca danos importantes a tecidos saudáveis e causa diversos efeitos colaterais.

Anatomia do pâncreas

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Em comparação com a quimioterapia padrão, o daraxonrasib quase dobrou a sobrevida geral

O que é o daraxonrasib?

Um novo medicamento chamado daraxonrasib representa um avanço importante no tratamento do câncer pancreático metastático.

O daraxonrasib é administrado por via oral, uma vez ao dia. Em vez de se ligar diretamente ao KRAS, ele se conecta a uma molécula chamada ciclofilina A, presente nas células e responsável por ajudar proteínas a adquirirem sua estrutura tridimensional final.

Esse complexo proteico então consegue se ligar ao KRAS ativo e bloquear os sinais que estimulam a multiplicação das células cancerígenas.

A empresa responsável pelo desenvolvimento do medicamento, a Revolution Medicines, apresentou em 31 de maio de 2026 os resultados de um estudo clínico de fase 3 com 500 pacientes com câncer pancreático metastático que já haviam recebido tratamento anteriormente.

Em comparação com a quimioterapia padrão, o daraxonrasib quase dobrou a sobrevida geral, que passou de 6,7 meses para 13,2 meses após o diagnóstico.

No total, o medicamento reduziu em 60% o risco de morte entre pacientes com câncer pancreático metastático.

O efeito colateral mais comum foi uma erupção intensa na pele, registrada em mais de 86% dos pacientes do estudo.

Os participantes também apresentaram com frequência estomatite — inchaço doloroso e feridas dentro da boca —, além de diarreia, náusea e vômitos.

Ainda assim, os pacientes que receberam daraxonrasib tiveram probabilidade muito menor de interromper o tratamento por causa de efeitos adversos graves em comparação com aqueles submetidos à quimioterapia. Eles também relataram melhora na qualidade de vida e redução da dor.

Próximos passos para o daraxonrasib

Ao conseguir atingir a mutação genética responsável pela grande maioria dos casos de câncer de pâncreas, os pesquisadores demonstraram que essa doença antes considerada "impossível de tratar" pode, sim, responder à terapia dirigida.

O próximo passo imediato é a análise regulatória do medicamento. Com os dados agora oficialmente publicados, a Revolution Medicines pretende solicitar a aprovação formal do remédio junto à Food and Drug Administration (FDA, uma espécie de Anvisa americana) e a outros órgãos reguladores ao redor do mundo.

Como o câncer pancreático avançado é notoriamente difícil de tratar, terapias inovadoras que demonstram ganhos relevantes de sobrevida frequentemente recebem análise prioritária ou acelerada.

O prazo para que o daraxonrasib chegue aos pacientes dependerá do processo de avaliação das autoridades regulatórias. Se aprovado, o medicamento poderá começar a ser usado em clínicas nos próximos meses.

No cenário mais amplo do desenvolvimento de medicamentos, esse avanço pode marcar uma mudança importante no tratamento do câncer de pâncreas.

A expectativa é que novos estudos passem a testar combinações de inibidores de KRAS com outros remédios, numa tentativa de impedir que os tumores desenvolvam resistência ao tratamento.

Se o daraxonrasib confirmar os resultados observados até agora, ele poderá abrir caminho para terapias mais precisas, personalizadas e eficazes contra o câncer de pâncreas nos próximos anos.

Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).