A crise que coloca em risco o cargo do primeiro-ministro britânico

Primeiro-ministro britânico usando óculos com uma armação preta e uma camisa branca. Ele gesticula enquanto fala

Crédito, PA Media

    • Author, Cecilia Barría e Julia Braun
    • Role, Da BBC News Mundo e BBC News Brasil
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  • Tempo de leitura: 4 min

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, está tentando manter seu cargo após os resultados desastrosos do Partido Trabalhista nas últimas eleições locais do país.

Até a noite desta terça-feira (12/5), mais de 80 dos 403 parlamentares trabalhistas pediram publicamente que Starmer renuncie imediatamente ou apresente um prazo para deixar o comando do governo.

A crise política começou depois das eleições municipais e regionais realizadas no início de maio.

O Partido Trabalhista — que voltou ao poder em julho de 2024, após 14 anos de governos conservadores — perdeu cerca de 1.500 cadeiras de vereadores e viu o partido de direita Reform UK crescer de forma significativa.

Na manhã desta terça, a secretária de Descentralização, Fé e Comunidades, Miatta Fahnbulleh, renunciou ao cargo e pediu que o primeiro-ministro estabeleça um cronograma para sua saída do poder.

Mas apesar da pressão, Starmer afirmou que pretende continuar no cargo por enquanto. "O país espera que continuemos a governar. É isso que estou fazendo e é isso que devemos fazer como gabinete", disse em uma reunião com os membros de seu governo.

O líder dos trabalhistas assumiu a responsabilidade pelos resultados eleitorais e admitiu que "as últimas 48 horas foram desestabilizadoras para o governo, o que tem um custo econômico real para o nosso país e para as famílias".

Ele afirmou, porém, que continuará governando. "O Partido Trabalhista tem um processo para contestar um líder, e esse processo não foi acionado", disse diante de seu gabinete nesta terça.

Na segunda, Starmer já havia prometido provar que as pessoas que duvidam de sua capacidade estão erradas. Ele também afirmou que seu governo vai reconstruir as relações com a Europa.

A derrota nas urnas foi vista como uma espécie de teste da popularidade do premiê, que caiu bastante desde que assumiu o cargo, há menos de dois anos.

O governo enfrenta dificuldades para entregar o crescimento econômico prometido, melhorar os serviços públicos, reformar o sistema de assistência social e, entre outras coisas, reduzir o custo de vida da população.

Além disso, embora o Partido Trabalhista tenha defendido a permanência do Reino Unido na União Europeia no referendo de 2016, a legenda evita retomar esse debate, que ainda divide profundamente o país.

Apesar da pressão crescente para deixar o cargo, o primeiro-ministro afirma que pretende liderar o Partido Trabalhista nas próximas eleições gerais, previstas para 2029.

'Extrema vulnerabilidade'

A situação política no Reino Unido tem sido uma verdadeira "montanha-russa de emoções", afirmou o editor de política da BBC, Chris Mason.

Primeiro-ministro britânico com a mão na gola da camisa

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Até agora, 78 parlamentares já se manifestaram publicamente pedindo que Starmer renuncie

Os acontecimentos estão se acelerando rapidamente, e Keir Starmer se encontra em uma situação de "extrema vulnerabilidade", avalia Mason.

A escolha de um novo líder para substituir Starmer só pode acontecer caso ele renuncie ou se deputados do Partido Trabalhista lançarem oficialmente uma candidatura contra ele.

Para tentar destituir o atual líder, um candidato precisa ter o apoio de pelo menos 20% dos deputados trabalhistas. Além disso, os parlamentares devem comunicar formalmente a candidatura ao secretário-geral do partido.

Os candidatos ao cargo de primeiro-ministro precisam ser deputados do partido que está no governo, o que impede que políticos de outras legendas disputem a liderança.

O mau desempenho eleitoral do Partido Trabalhista fortaleceu o Reform UK, partido situado à direita no espectro político britânico e liderado pelo político populista Nigel Farage.

Analistas afirmam que o crescimento do Reform UK pode aproximar o Reino Unido de uma tendência já observada em outros países europeus, como França, Alemanha e Holanda, onde partidos populistas de direita tiveram um crescimento acelerado nas eleições dos últimos anos.

Outro fenômeno revelado pelas eleições locais no Reino Unido foi o enfraquecimento do tradicional bipartidarismo. Os votos passaram a se dividir entre cinco ou mais forças políticas diferentes, numa das maiores transformações da política britânica no último século.

Para o cientista político britânico John Curtice, os resultados mostram que "a política no Reino Unido está fragmentada" e que o eleitorado se encontra altamente polarizado.

Oposição promete deportações em massa

Em meio à crise enfrentada pelo Partido Trabalhista, o porta-voz de assuntos internos do Reform UK, Zia Yusuf, afirmou há alguns dias que um eventual governo liderado pelo partido teria como prioridade máxima a criação de um órgão responsável por coordenar a deportação de imigrantes em situação irregular.

Segundo ele, os agentes desse órgão seriam responsáveis por "localizar, deter e deportar todos os imigrantes ilegais".

Eles também seriam mantidos em instalações modulares antes da realização de até cinco voos diários de deportação.

Yusuf afirmou ainda que seria necessário adotar medidas para proteger a cultura britânica, incluindo novas regras para impedir que igrejas sejam transformadas em mesquitas.

O líder do partido, Nigel Farage, aproveitou o momento para destacar que a derrota do Partido Trabalhista superou suas expectativas e afirmou que "o melhor ainda está por vir". Segundo ele, os resultados indicam que o Reform UK está no caminho para vencer as eleições gerais previstas para 2029.

Mas, como ainda faltam pouco mais de três anos para a próxima eleição nacional, o cenário político do país segue indefinido e ainda não há clareza sobre quem comandará o Reino Unido no futuro.